Comunicadores do GIFE se encontram para partilhar tendências e aprendizados sobre comunicação transformadora no Brasil e no mundo

Na sexta-feira (09/11), o Instituto Alana sediou uma reunião de comunicadores de associados ao GIFE. A iniciativa foi organizada pelo GIFE em parceria com a Cause e a Rede Narrativas com o objetivo de partilhar os aprendizados da ComNet (The Communications Network Annual Conference) e outros eventos internacionais que apresentam tendências e inovações na área da comunicação de causas.

O espaço de diálogo foi ao encontro do esforço de fortalecimento de uma comunicação em rede nos âmbitos da Narrativas e da rede de comunicadores do GIFE. A ocasião também foi uma oportunidade para o lançamento das Rodas de Conversa e de um guia com dicas para mobilizar comunicadores a organizarem encontros presenciais em suas localidades e redes.

“Existe uma coisa que vai além do trabalho do dia a dia que é a motivação de pertencimento que desperta quando encontramos nossos pares. Vai além do online. Isso aqui a gente acha sempre muito importante. Ter em quem se apoiar faz muita diferença”, ressaltou Mariana Moraes, gerente de comunicação do GIFE.

Aprendizados da ComNet

Um dos destaques do debate ficou por conta da participação de algumas das comunicadoras presentes na delegação brasileira que esteve na edição de 2018 da ComNet, realizada entre 10 e 12 de outubro, em São Francisco, na Califórnia. Desde 2015, representantes do GIFE, de seus associados e de outras organizações do Brasil se organizam para estar presente no evento.

Considerado a principal conferência de comunicadores de organizações sem fins lucrativos do mundo, o evento desse ano ressaltou a importância da comunicação em tempos de crise político-econômica. Importância da diversidade e inclusão, posicionamento político e cuidado com a mensagem para o diálogo amplo e efetivo e eficácia do storytelling foram alguns dos destaques da conferência.

Lara Alcadipani, gerente de relações institucionais e comunicação da Fundação Lemann, reconhece que o Brasil não perde para o país norte americano em conhecimento e experiência, mas que a conferência tem sido um momento de inspiração e reflexão importante para a continuidade do trabalho no Brasil.

“A gente vai para esses eventos e percebe que não é necessariamente sobre aprender coisas completamente novas ou diferentes do que a gente está fazendo, mas traz perspectiva para a partir de outros pontos de vista e todo mundo aqui com certeza tem experiências bem interessantes para agregar.”

Diversidade e representatividade de vozes

Laura Leal, coordenadora de comunicação do Instituto Alana, compartilhou com o grupo algumas observações acerca da palestra de abertura da ComNet que contou com a participação de Lena Waithe, atriz, produtora e roteirista americana, e do jornalista e locutor Joshua Johnson. Numa espécie de talk show, Joshua entrevistou Lena, considerada uma das atuais promessas de Hollywood. A partir de suas experiências pessoais, a artista desafiou o público a pensar fora das normas convencionais.

Laura chama atenção para uma das marcas desta edição do ComNet, a importância da diversidade, destacada já na abertura do congresso. “Lena fala da importância de mudar a narrativa que ela encontrava e que não representava o que ela e outras pessoas viviam e o objetivo de colocar holofote nas pessoas que não têm a oportunidade de falar da sua perspectiva. Comunicação transformadora tem a ver com isso: se conectar com múltipas vozes, abrir diálogo e dar espaço para a voz dessas pessoas. Esse aspecto foi um dos grandes destaques dessa edição e do que a gente pode pegar para pensar nas causas no Brasil”, observa.

Na mesma linha, Lara, da Fundação Lemann, chamou atenção para o desejo apontado pela atriz de se reconhecer nas narrativas da TV, dos filmes e das séries, se referindo à importância de dar espaço para que as pessoas sejam protagonistas na hora de contar suas próprias histórias. “Ela trouxe isso muito forte: ‘eu to fazendo o que estou fazendo porque eu estava cansada de ver gente falando sobre pessoas como eu, eu quero me reconhecer e quero que as pessoas como eu se reconheçam’. Não existe narrativa, existe a narrativa que fala com pessoas. Comunicar é o que o outro entende e não o que você quer dizer”, observa.

Para a comunicadora, o tom da ComNet provocou pensar a comunicação pela lógica do diálogo e não do emissor-receptor, colocando nas narrativas as diferentes perspectivas.

Sandra Mara Costa, da consultoria Mc&Pop Comunicação, sintetizou em alguns pontos as contribuições da conferência norte americana para pensar a comunicação que deve ser empreendida pelo setor no Brasil no momento atual: não se omitir e não se intimidar; atuar na controvérsia; fazer advocacy com responsabilidade; tratar os assuntos de forma política, mas não partidária; garantir alinhamento com os stakeholders internos e externos; não abrir mão dos valores fundamentais e inegociáveis; e garantir rigor ético e de qualidade com a produção de conteúdo.

Mariana, do GIFE, mencionou a intenção de trazer a ComNet para o Brasil ou ainda organizar uma versão brasileira do evento no próximo ano. “Estamos em fase de captação, mas temos a intenção de mostrar que aqui os grandes exemplos também acontecem.”

Outros eventos

Francine Menezes, sócia-diretora da Cause, partilhou com o grupo alguns aprendizados adquiridos pela organização participando de outros eventos internacionais, três em especial: South by Southwest (SXSW), The Future of StoryTelling (FoST) Festival e Fórum Econômico Mundial de Davos.

Entre as questões que estão sendo discutidas no mundo todo em torno das causas, ela destacou o impacto da tecnologia na vida das pessoas e as questões éticas relacionadas a isso; como dar um salto de inovação na educação – tão necessária para promover mudanças -, não só no Brasil, mas também nos países mais avançados; a questão das mudanças climáticas; e a quarta revolução industrial.

“Em especial sobre essa onda conservadora que não é exclusividade do Brasil, mas é uma questão no mundo, e que está gerando uma comunicação extremamente polarizada com todo mundo gritando e ninguém se escutando, ficamos pensando qual é o papel do comunicador, como nossas organizações vão se colocar e imaginamos dois caminhos: coragem e empatia”, conta.

A partir dessa reflexão, alguns temas apareceram como a necessidade de extrapolar a ‘bolha’, se desapegando de terminologias e linguagens restritivas, e também o relacionamento da comunicação de causas com a marca das instituições. Sobre esse assunto, Francine afirma que “muitas vezes, as ações de comunicação se apegam à marca ou à história da organização, quando o que de fato importa são as causas e as pessoas”.

Com menção ao livro “O Novo Poder”, de Henry Timms e Jeremy Heimans, Mariana trouxe ao grupo a perspectiva acerca da comunicação aberta para ser customizada sob a lógica de poder como a capacidade de produzir os efeitos desejados. “No novo poder, a ideia não é acumular, mas canalizar. É sair da lógica da igreja, quando uma pessoa fala para várias, para a lógica da feira, quanto todos falam com todos”, observa a gerente.

Ela deu como exemplo o Dia de Doar, uma campanha que acontece há alguns anos no Brasil e que tem como força justamente a descentralização e a pulverização de ações customizadas por atores da filantropia e da sociedade civil que têm o intuito maior de fomentar a cultura de doação no Brasil.

Francine ressaltou ainda a nova forma de legitimidade que atualmente se centra nos pares muito mais do que na comunicação de massas. “Como saio da comunicação e vou para o engajamento e a mobilização? Como criar legitimidade e um movimento de fato? Legitimidade faz pessoas procurarem seus pares. Cada vez mais a viralização dos movimentos e do poder de compra tem a ver com essa rede de confiança. Para alinhar cabeça, coração e mãos é preciso envolver as organizações.”

Rede Narrativas

Lançada durante o X Congresso GIFE (assista ao lançamento aqui), a Rede Narrativas reúne profissionais que trabalham com a comunicação de causas de interesse público.

Articulada pelo GIFE junto a associados e parceiros a partir da participação de um grupo de comunicadores brasileiros das últimas edições da ComNet, a rede defende que as OSCs apostem na comunicação estratégica para pautar suas agendas e gerar mudanças.

Mariana destaca o objetivo de fortalecer o comunicador. “Nós achamos que o comunicador fortalecido mostra sua relevância dentro da organização, consegue argumentar por que a comunicação precisa existir, por que ele precisa ser chamado no momento zero do projeto, enfim, por que ela precisa ser forte dentro da organização.”

“Eu vejo a oportunidade de a Narrativas ser um espaço de acolhimento tanto nas lutas diárias como na questão pessoal porque a gente coloca a cara. A Narrativas pode ser esse lugar para trocar, se sentir acolhido, se conhecer e proteger”, acredita Laura.

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