Deslocamento forçado tem recorde e supera 68 milhões de pessoas em 2017, diz relatório da Agência da ONU para Refugiados

Guerras, conflitos e perseguições foram apontadas no relatório Tendências Globais – 2017 (ou Global Trends), da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), como motivos para o deslocamento forçado de 68,5 milhões de pessoas em todo o mundo, marcando um novo recorde em 2017. É praticamente a população da Tailândia, conforme o documento que afirma que os países mais afetados ainda serão os em desenvolvimento. Em comparação à população mundial, uma em cada 110 pessoas encontra-se fora das suas comunidades de origem.

O topo da lista é ocupado pelos refugiados da Síria com 6,3 milhões, seguido do Afeganistão com 2,3 milhões, Sudão do Sul, 2,4 milhões, Myanmar, 1,2 milhão e Somália com pouco mais de 900 mil. O lançamento dos dados aconteceu dia 19 de junho, em São Paulo, véspera do Dia Mundial dos Refugiados (20 de junho) e estão disponíveis em espanhol e em inglês.

Do universo de mais de 68 milhões de pessoas, 16,2 milhões se deslocaram em 2017 tanto pela primeira vez como repetidamente – o que corresponde a 44,5 mil pessoas sendo forçosamente deslocadas a cada dia (ou uma pessoa deslocada a cada dois segundos). E os que fugiram de seus países para escapar de conflitos e perseguições somam 25,4 milhões de pessoas. Os números correspondem a 2,9 milhões a mais do que em 2016 e é o maior aumento que a ACNUR já registrou em um único ano. Solicitantes de refúgio, que ainda esperavam o resultado de seus pedidos em 31 de dezembro de 2017, totalizam 3,1 milhões de pessoas (um aumento de 300 mil em comparação ao ano anterior). As pessoas que se movimentaram dentro do seu próprio país reuniram um universo de 40 milhões do total, um pouco menos que os 40,3 milhões em 2016.

“O que é preciso fazer para que um país seja acolhedor é um dos temas apresentados no relatório. Um exemplo é o compromisso total do país de origem com o processo de reintegração para garantir que os retornados possam reconstruir suas vidas em segurança. A maioria dos refugiados sai de suas comunidades em desenvolvimento e chega em países também em desenvolvimento. Quer dizer que os países de acolhida enfrentam os mesmos desafios para satisfazer as necessidades básicas de sua população. Então, como o restante da comunidade internacional pode apoiar esses esforços? E falamos que isso acontece no âmbito global entre países, mas também entre Estados. Um exemplo já acontece no Brasil, que é a cooperação entre Estados solidários e a Roraima, o que mais recebe hoje pessoas que procuram um lugar seguro para ficar”, contou Federico Martínez, representante adjunto da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). Reassentamento e integração local são outras duas formas apresentadas no levantamento que classifica um país como acolhedor.

Realidades vividas x realidades percebidas

De acordo com a ACNUR, o “relatório não analisa o ambiente global de refúgio, que continuou a testemunhar em 2017 vários incidentes de retornos forçados, a politização de refugiados, refugiados presos ou sem a possibilidade de trabalhar, e até mesmo vários países se opondo ao uso da palavra refugiado”. Porém, oferece várias visões desse cenário, incluindo, em alguns casos, as realidades percebidas versus as realidades verdadeiras do deslocamento forçado e como elas podem, às vezes, estar em desacordo. Uma das percepções é que as pessoas deslocadas estariam principalmente em países do hemisfério norte. Mas não: 85% dos refugiados estão nos países em desenvolvimento, “muitos dos quais são extremamente pobres e recebem pouco apoio para cuidar dessas populações. Quatro em cada cinco refugiados permanecem em países próximos aos seus locais de origem.”

“O levantamento buscou conhecer e falar das realidades vividas e não das realidades percebidas. Uma descoberta importante foi a de que a maioria dos refugiados vive em áreas urbanas (58%), não em campos ou áreas rurais”, declarou Federico.

Uma novidade desta edição do relatório é um capítulo somente dedicado às crianças e adolescentes, dada a constatação da situação protagonizada por estes grupos: quase a metade das pessoas em deslocamento forçado pertence a essa faixa etária. Pela primeira vez, o ACNUR começou a informar o número de menores de idade desacompanhados e separados de suas famílias, que são registrados como refugiados.

“53% da população descolocada são menores de 18 anos,” alerta Federico, lembrando que em 2009 eram 41%. O país onde ocorreu o maior número de solicitações de refúgio feitas por menores desacompanhados e separados, em 2017, foi a Itália, com 9.900 pedidos, um número que representa um aumento de 68% em relação aos 5.900 pedidos registrados em 2016. Estima-se que a quantidade de crianças e adolescentes que chegaram por mar àquele país foi 15.800. De acordo com o levantamento, há um esforço entre agências parceiras, como o UNICEF, para melhorarem os dados a respeito desses públicos, pois os atuais subestimam consideravelmente tanto os requerentes de asilo quanto os refugiados.

Realidade latino-americana

O maior registro de refugiados em 2017 na América Latina foi o de cidadãos saídos da Venezuela, um total de com 345.600 pessoas. O documento afirma que a difícil situação de segurança, a perda de receita como consequência da situação econômica atual e da escassez de alimentos e medicamentos impulsionaram um grande número de pessoas a deixarem o país durante o ano.

Alguns países da região latino-americana introduziram mecanismos fora do sistema formal de asilo para que venezuelanos residissem em um período maior (de um a dois anos) e ainda tivessem acesso a trabalho e serviços sociais. Esses mecanismos incluem autorizações de residência temporária, vistos de migração, de trabalho, humanitários e regional. Os países anfitriões que mais receberam os venezuelanos foram: Chile (84.500), Colômbia (68.700), Argentina (56.600), Panamá (48.900), Equador (41.000), Peru (31.200), Brasil (8.500) e Uruguai (6.200).

De seu lado, entre outras atividades, a ACNUR contribui direta ou indiretamente por meio da prestação de assistência material, assessoria jurídica, registro e acesso a documentação.

“O Brasil é um dos principais países de acolhida na região e as situações de países vizinhos nos faz pensar que o deslocamento vai continuar. Vocês estão entre os países que mais receberam solicitações para o reconhecimento da condição de refugiados de pessoas venezuelanas, sendo que a maioria de pessoas, entre 60 e 70%, entraram por Roraima. É uma situação regional e o país está tendo um papel importante de dar proteção a estas pessoas que precisam. Então, é muito importante continuar fortalecendo as autoridades, o trabalho maravilhoso e solidário que eles fazem. Porém, cada cidadão também tem um papel que é manter essa solidariedade, esse espírito de acolhida que é parte essencial desse trabalho”, avaliou Frederico.

Nova Lei de Migração

Segundo Paulo Illes, coordenador do Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC), apesar do Brasil ser composto por imigrantes e historicamente desempenhar um papel importante na recepção de imigrantes e refugiados, o país não conseguiu ainda desenvolver uma Política Nacional de Migração que garanta às pessoas migrar com direitos. “Há um distanciamento entre o nosso discurso em foros internacionais, nos quais o país tem um papel de defensor do direito à migração, e a nossa atuação prática, que ainda é bastante excludente. Embora se tenha avançado com acordos regionais, com a institucionalização do visto humanitário e na acolhida aos refugiados, o país não supera o paradigma da segurança nacional expresso no decreto 9.199/17 que regulamenta a Lei da Migração 13.445 de 2017,” pontua.

O número de imigrantes e refugiados por aqui é muito baixo se comparado a outros países da região ou da União Europeia e Estados Unidos. Os imigrantes representam menos de 0,1 % da população brasileira enquanto a média na Europa é acima dos 5%, de acordo com o Centro. “Acredito que a imigração haitiana permitiu ao Brasil avançar na construção das políticas públicas e que, atualmente, a imigração venezuelana traz novos aprendizados. No entanto, precisaria o país estar aberto a essa nova realidade e implementar uma Política Nacional de Migração, Refúgio e Apatridia, prevista no artigo 120 da nova lei, uma distribuição de responsabilidade entre os entes federados e com participação social”, defende.

Sancionada em 2017, a nova Lei de Migração revoga o Estatuto do Estrangeiro, criada no período da Ditadura Militar no Brasil, trazendo avanços como a garantia ao imigrante de condição de igualdade com os nacionais, inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade e acesso aos serviços públicos de saúde e educação. Além disso, registro da documentação que permite ingresso no mercado de trabalho e direito à previdência social. Poderão ainda exercer cargo, emprego e função pública, conforme definido em edital, com exceção dos concursos reservados a brasileiros natos.

O coordenador do CDHIC afirma, ainda, que são muitos os desafios a serem enfrentados a partir da nova Lei de Migração, começando pela dificuldade para informar aos imigrantes sobre os requisitos para a regularização migratória. “A nova lei não conseguiu desburocratizar os processos. Pelo contrário, deixou ainda mais difícil a compreensão através de seu decreto regulamentador e das mais de 70 portarias ministeriais. Em segundo lugar, ainda não foi regulamentado o artigo 120, que seria a base para a construção das políticas públicas com transparência. A nova lei possui princípios fundamentais que são muito importantes na atual conjuntura, tais como a não criminalização da imigração irregular, a acolhida humanitária, a promoção da regularização migratória e o diálogo social. Portanto, existe um caminho possível de melhorias a partir dela e que é urgente que seja trilhado com transparência, o que permitiria ao Brasil assumir um protagonismo no tema em âmbito regional e internacional”, afirma.

Investimento social privado

Uma das responsabilidades da ACNUR, exposta no documento, é a de capacitar e apoiar as soluções integrais e duradouras que permitem que os refugiados e deslocados internos reconstruam suas vidas em condições dignas e seguras. As soluções exigem um compromisso coletivo com a resolução das necessidades de proteção de refugiados e outras pessoas deslocadas por meio de várias opções e oportunidades.

A agência acredita que os atores que estão construindo novas versões desse cenário não são apenas governos, ONGs, agências do sistema ONU ou os próprios refugiados, mas também o setor privado, instituições financeiras internacionais e sociedade civil, incluindo centros de estudo, o campo acadêmico e os líderes religiosos.

“O papel do setor privado é essencial na geração de mais oportunidades de emprego para os refugiados, na disseminação de informações dentro de seus próprios segmentos e nas possibilidades de treinamento. Temos o exemplo do Empoderando Refugiadas, em que as mulheres passam por uma série de treinamentos sobre adequações ao mercado de trabalho brasileiro e capacitações de seus próprios talentos para que ingressem de forma mais otimizada nas empresas. Retrabalhar os conhecimentos é um papel fundamental e, assim, pelos próprios exemplos, as empresas passam a desmistificar as barreiras cognitivas em relação a quem são de fato essas pessoas refugiadas. Além disso, devem participar ativamente de fóruns, como o lançamento de hoje, e articular-se com iniciativas concretas. Existe muito boa vontade das empresas, mas ainda há muita insegurança por parte delas na contratação de refugiados. O desafio é entender que esse grupo é composto por pessoas como você e como eu, e centrar boa vontade em projetos concretos que acolhem e respeitam os refugiados,” provoca Federico Martínez. O Empoderando Refugiadas é uma ação da ACNUR, Pacto Global e ONU Mulheres.

Paulo Illes problematiza a questão e é da opinião de que os investimentos sociais privados na temática das migrações ainda são bastante tímidos por aqui. “Não existe uma política orientada para a temática de modo que apenas algumas empresas que têm relação direta com os migrantes, tais como as empresas de remessas ou de setores como o das confecções, vem realizando alguns investimentos. No caso das de remessas, os investimentos estão mais focados nas festividades das comunidades, com apoio às iniciativas como as festas pátrias e religiosas. Não conheço outras experiências no momento que sejam mais voltadas para atenção e políticas públicas. Por outro lado, empresas do setor têxtil nos últimos anos têm investido em iniciativas de ONGs que atuam na defesa e da promoção dos direitos humanos e de combate ao trabalho escravo. Pautar esta temática é de extrema importância e urgente,” pondera.

O tema “migrações e refugiados” também faz parte do projeto “O que o investimento social privado pode fazer por…”, do GIFE. Lançado no X Congresso GIFE, a iniciativa busca refletir sobre as contribuições e oportunidades de atuação em novas agendas do investimento social privado no Brasil. Ao todo, oito temas foram abordados: migrações e refugiados, segurança pública, direitos das mulheres, equidade racial, cidades sustentáveis, gestão pública, mudanças climáticas e água.

Os vídeos são lançados semanalmente e estão disponíveis no canal do Youtube do GIFEInscreva-se no canal para receber um aviso de publicação de novos vídeos.

Recomeços

Há dois anos residindo no Brasil, Carlos Daniel Escalona Barroso, jornalista venezuelano, diz que o maior desafio para o país é ser menos burocrático. “Tenho três protocolos de solicitação de condição de refugiado e ainda não consegui. Assim como eu, há muitos outros nessa situação”, conta Carlos, que trabalha no setor hoteleiro e abriu uma empresa de comida venezuelana, orgânica e artesanal, a Nossa Janela SP. “Não consegui emprego na área por ser ‘qualificado’. A saída foi investir no ramo alimentar”, afirma o jornalista que contou com o apoio da Casa do Migrante/Missão Paz e das irmãs scalabrinianas para conseguir permanecer aqui.

Administradora de sistemas, Lara Lopes, veio de Maputo, capital de Moçambique, e está no Brasil há cinco anos. Para ela, as maiores dificuldades enfrentadas aqui foram moradia e trabalho. “Quando se tem objetivo e força de vontade, você corre atrás. Mas é muito esforço, sobretudo para nós porque muitos lugares não aceitam o protocolo que recebemos como documento oficial. Além disso, não temos condições de dar três meses de aluguel adiantado para conseguirmos morar. Outro desafio para mim foi que gostaria de ter trabalhado na minha área desde que cheguei, mas meu diploma não foi reconhecido”, lamenta Lara que está terminando sua segunda faculdade de TI.

A moçambicana, que quer se naturalizar brasileira, teve ajuda da Caritas no seu primeiro emprego. “As autoridades brasileiras deveriam diminuir o tempo para emissão dos documentos e trabalhar mais em prol da divulgação dos direitos dos refugiados. As empresas não sabem sobre isso e, portanto, não dão credibilidade, principalmente para quem acabou de chegar, que têm somente os protocolos. Elas deveriam estar abertas à diversidade mesmo criando apenas duas ou três vagas cada uma, e que sejam pacientes para quem não tem conhecimento da língua portuguesa”, reivindica.

Investimento social privado na prática: #Migração, um movimento que transforma

A América do Sul tem mais de 5 milhões de imigrantes ou 2,1% da população total, e mais de 10 milhões de emigrantes, numa média regional de 5,4% da população total. Cerca de 70% da migração no continente é intrarregional e a razão laboral é a principal responsável por este número. O Brasil tem sido um dos principais destinos para os haitianos na América do Sul com cerca de 70 mil autorizações de residência entre 2010 e 2016. Quase 35 mil residências foram concedidas a dominicanos entre 2005 e 2015 na Argentina e no Chile.

Fenômeno permanente da condição humana, a migração transformou e continua mudando a sociedade. Porém, nem sempre é uma escolha fácil por aflorar a busca por novas perspectivas e o sonho de um futuro melhor tanto para o migrante quanto para sua família.

E é nesse contexto que a Fundação Avina, que trabalha com a temática há 20 anos, criou o projeto #Migração, um movimento que transforma com a intenção de trazer a sociedade para um debate aberto, buscando esclarecer e desmistificar preconceitos e pós-verdades que envolvem os processos migratórios na América do Sul.

Um dos mitos é que a migração laboral na AL é feita apenas de profissionais pouco qualificados. Segundo a Fundação Avina, o Centro Latinoamericano de Políticas Económicas y Sociales de la Pontificia Universidad Católica de Chile (Clapes UC) afirma que a migração laboral no continente também conta com cientistas e intelectuais, técnicos e profissionais de nível médio, membros do executivo e gerentes de empresas. Alguns dos maiores benefícios desse processo são o aporte de know how, a difusão de inovação e tecnologia e a troca de experiências. A visão estereotipada desse grupo levou a instituição a criar, inclusive, uma seção Mitos e Verdades em sua página na internet. Para a Fundação, a migração representa um importante catalizador para a geração de mudanças sociais positivas.

Ofelia Ferreira, coordenadora do Programa Latino-americano de Migração da Fundación Avina, associada ao GIFE, concedeu entrevista ao boletim contando um pouco como a organização tem trabalhado a temática há 20 anos.

RedeGIFE – Como enxerga o papel dos investidores sociais na temática da migração e quais os principais desafios que a Fundação Avina enfrenta ao trabalhar com ela?

Ofelia Ferreira – Migração é um campo estreitamente vinculado ao desenvolvimento de nossas sociedades. Grandes fluxos migratórios do passado foram os motores de muitos processos aceleradores de desenvolvimento econômico, cultural, político e social, tanto no Brasil quanto no mundo. Um importante passo para isso é que vejamos as pessoas migrantes como parte do que esperamos de positivo para nossa sociedade e não como um problema. Isso implica em deixarmos de usar expressões como “crise migratória”. Ou outras ainda pior: “a invasão…”. Passa também por aprendermos de forma bem concreta o que são as migrações: primeiro, que a mobilidade humana é um direito universal de todos e todas. Segundo, que a ideia de fechar fisicamente fronteiras não acaba com fluxos migratórios, só torna a violência contra migrantes ainda mais perversa. E é o que estamos assistindo atualmente.

Há exemplos e práticas de como incorporar migrantes como motores do desenvolvimento: as experiências de migrações sazonais protegidas para o trabalho em viniculturas no Canadá ou para o tratamento do camarão nos Estados Unidos. Não que essas experiências sejam completamente isentas de dificuldades, mas se trata de como proteger a migração e os migrantes porque são parte do motor do desenvolvimento local. E, nesse contexto, quando dificuldades e problemas acontecerem, há leis, sistemas, programas e estruturas de gestão pública para resolvê-los sem submeter os mais vulneráveis a violação de seus direitos.

E os investidores sociais são chave na formação dessa compreensão. A primeira expectativa em relação a seu papel é que possam ajudar nossa sociedade a abrir-se a uma nova visão sobre migração e sobre pessoas migrantes. A Fundação Avina tem trabalhado em experiências muito interessantes de parcerias com investidores privados, líderes e empresas que, organizadas, têm avançado para criar nova cultura nessa área porque passaram a reconhecer o valioso aporte das pessoas migrantes para seus negócios e para a sociedade como um todo.

Guatemala, Honduras, Costa Rica e Chile estão vendo essa realidade acontecer. É fundamental ressaltar que não estamos falando de olhar para migrantes como mão de obra mais submissa e flexível. Este é um conceito importante: migração sem proteção de direitos não ajuda a nenhuma sociedade!

RedeGIFE – Quais nossas maiores fragilidades e oportunidades de mudanças em relação ao tema?

Ofelia Ferreira – O Brasil já apontou uma boa direção quando sancionou a nova Lei de Migração. Ainda são necessárias regulamentações sobre diferentes aspectos em relação à gestão das migrações. E esses devem ser temas debatidos e construídos em conjunto pelas organizações que historicamente atuam na área, têm expertise e conhecem boas práticas que trazem alinhamento com o conceito protetivo de direitos das pessoas migrantes. E que também incorporam uma visão estratégica para o desenvolvimento sobre o papel das migrações.

É fundamental que o Brasil fortaleça suas normativas e práticas institucionais de acolhida e respeito aos direitos de migrantes. Para isso, temos que enfrentar com coragem o que mais nos afeta: a xenofobia, que se alimenta da ignorância, do preconceito e do medo, gerando violência e violação de direitos. Não é outra a origem de posicionamentos públicos que propagam mitos de que migrantes são ameaça, que roubam empregos ou são envolvidos com o crime.

É inegável que as crises econômicas mundiais intensificam esses mitos. Mas essa visão estereotipada não se sustenta. Seja porque os migrantes não ocupam vagas que coincidem com as vagas a serem preenchidas pelos trabalhadores locais, seja porque os próprios migrantes também contribuem para responder às necessidades econômicas dos mercados laborais nacionais. No Chile, por exemplo, o último relatório do Serviço Jesuíta para Migrantes e os Refugiados (2016) revela que boa parte dos migrantes tem uma escolaridade acima da média chilena e que chegam ao país como mão de obra qualificada.

Na América Latina, os migrantes são reconhecidos por serem positivos, criativos e proativos no engajamento em trabalhos importantes para a sustentação das economias. Principalmente em setores como a indústria têxtil, agrícola, construção civil, processamento de alimentos, de transportes, entre outros. Os governos, mercados e economias nacionais têm o dever de assegurar que exerçam sua presença e participação de forma protegida.

O Brasil tem muito a aprender com outras experiências positivas e pode se beneficiar delas. Para isso, devemos superar os mitos que nos impedem de reconhecer a sociedade de migrantes que sempre fomos e como podemos continuar a positivar a experiência migratória em benefício de todos.   

RedeGIFE – O #Migração é um programa da Plataforma de Inovação Com Sentido?

 Ofelia Ferreira – A iniciativa #Migração: um movimento que transforma combina nossa ação com a de nossos parceiros na América do Sul para ampliar visões e conhecimentos sobre a migração como um processo positivo para nossas sociedades. Sim, ela é um dos importantes componentes da Inovação com Sentido que Fundação Avina tem construído ao longo desses anos na região. Que migrantes tenham voz e papel ativo e protegido em nossas sociedades, que investidores sociais sejam parceiros para abrir novas fronteiras para todos nós que queremos e temos direito a migrar, que nossos governos reconheçam que devemos acolher e proteger migrantes e não deixá-los à deriva ou abandonados a sua própria sorte quando são extremamente vulneráveis.

RedeGIFE – Vimos as informações Cenário da Migração no site da Avina. Existe algum dado que seja mais difícil de trabalhar que outro? Quais as nuances entre eles?

Ofelia Ferreira – Há cenários desafiadores ainda, sim. Mas observando os dados quantitativos – como, por exemplo, o fato de que migrantes no Brasil não alcançam nem 1% do total de nossa população e que há mais brasileiros migrantes fora do Brasil do que estrangeiros migrantes no Brasil – sabemos que os desafios são possíveis de se enfrentar. Nossos parceiros nesse Movimento que Transforma dão testemunho disso: com a Missão Paz, uma operação da congregação dos Scalabrinianos, em São Paulo, há cotidianamente uma atenção de alta qualidade à pessoa migrante e sua família, que inclui abrigo, assistência social, educação para a compreensão da cultura e da vida no Brasil, sensibilização dos departamentos de RH de empresas, inclusão laboral de milhares de migrantes a cada ano. Podemos replicar essa experiência em outros lugares, no Brasil e fora do Brasil. E podemos aprender daí para inspirar políticas públicas.

RedeGIFE – Na seção Mitos e Verdades no site da Fundação, uma verdade divulgada por vocês é que “quase sempre, o tema da migração é tratado por setores da mídia, algumas instituições públicas e privadas e até por alguns representantes de governos de forma tendenciosa”. Realizar ações de formação de comunicadores/mídia e influenciar o currículo da escola seriam boas oportunidades? Poderia dar sugestões de como popularizar mais o tema hoje?

Ofelia Ferreira – Sim. Certamente essas são duas propostas com alto impacto para popularizar uma nova visão sobre migrações. Um aspecto fundamental é que possamos explorar a convivência com os migrantes que chegam ao Brasil nesses novos fluxos migratórios. É a experiência da convivência que semeia memórias emocionalmente positivas. É isso que pode vencer o medo e a xenofobia. Para que essas experiências aconteçam com frequência e escala, seria fundamental que escolas pudessem adotar o 15 de agosto como Dia do Migrante e do Refugiado. Transformar essa data numa semana de encontros e aprendizagens para que crianças conheçam suas histórias mútuas, que descubram as suas próprias origens, que saibam que vieram de algum lugar e têm direito de migrar para outro se assim o quiserem, e que há pessoas migrantes no Brasil que chegaram com garra, vontade e experiência para somar positivamente ao que o país está construindo. Somos todos migrantes.

E certamente, aos investidores privados, é fundamental que busquem conhecer os novos fluxos migratórios, que se integrem como parceiros na construção de uma nova cultura de inclusão e respeito à diversidade. Equipes de RH e líderes privados poderão buscar organizações que acumulam experiências e boas práticas na inclusão laboral de migrantes e no desenvolvimento de diálogos interculturais em suas empresas e organizações.

RedeGIFE – Nesses 20 anos de atuação na temática da migração, em linhas gerais, qual o legado da Avina?

Ofelia Ferreira – O legado de Fundação Avina na proteção dos direitos de migrantes, em ações sempre em conjunto com seus aliados, inclui uma ampla diversidade de impactos: desde o fato de que nossos irmãos mexicanos migrantes podem ter acesso aos seus direitos eleitorais mesmo estando fora de seu país em situação de vulnerabilidade, até a eliminação de um código assignado às crianças filhas de migrantes no Chile que as rotulava e discriminava, deixando-as sem acesso a direitos básicos nas rotinas escolares, por exemplo. Passa também pela inserção laboral e apoio às populações de retornados forçados de Estados Unidos para a Guatemala, onde nossos programas e parceiros têm ajudado a transformar suas experiências e talentos em novos negócios e maior desenvolvimento local. As experiências são muitas. Sabemos que ainda há longo caminho a frente. Fundação Avina continuará ampliando a escala de impactos, trabalhando em processos colaborativos com parceiros valiosos e colaborando com líderes privados e com os governos de nossa região para que a migração seja reconhecida como um Movimento que Transforma positivamente todas as nossas sociedades.

Como você pode ajudar

A Fundação Avina organizou um passo a passo para quem quiser contribuir de alguma forma:

·         Enxergue um migrante com outros olhos, despindo-se de preconceitos;

·         Adote um comportamento aberto e receptivo, buscando conhecer mais sobre a temática migratória;

·         Dê visibilidade para informações, ações e práticas (coletivas ou individuais, do poder público, da sociedade organizada ou até das comunidades migrantes), derrubando mitos e estereótipos que atrapalham o entendimento sobre a mobilidade humana;

·         Visite e/ou organize eventos em que migrantes e não migrantes possam se conhecer e se apoiar mutuamente;

·         Não discrimine um migrante na hora de selecionar um candidato a uma vaga de emprego. Suas qualificações profissionais e educacionais é que devem ser analisadas, assim como acontece com outros profissionais;

·         Envie mensagens para seu parlamentar ou para os representantes do governo, pedindo que os migrantes tenham seus direitos protegidos, e apoie leis e políticas migratórias que defendam essa população;

·         Organize, na sua comunidade, escola ou empresa, um bate-papo entre migrantes e a população, para conhecer seus rostos e histórias de vida.

·         Compartilhe nosso conteúdo em suas redes sociais, mostrando, para todos, o impacto positivo da migração laboral;

·         Conheça as organizações parceiras da causa e ajude como voluntário ou fazendo doações.

 

Dica

–  Curso Co-criando Inovação: Migração, Refúgio e Empreendedorismo: O objetivo é disponibilizar ferramentas para que migrantes e pessoas em situação de refúgio possam criar projetos próprios gerando emprego e renda. Serão selecionados 40 jovens imigrantes e em situação de refúgio, entre 18 e 30 anos, e entre os critérios de participação estão paridade de gênero, representatividade territorial na cidade de São Paulo, potencial inovador do empreendimento e comprometimento. Serão quatro encontros, aos finais de semana, no período da tarde nos dias 21/7, 28/7, 29/7 e 4/8 nas regiões da Bela Vista e Avenida Paulista, em São Paulo (SP). As inscrições podem ser feitas até o dia 8 de julho de 2018 pelo e-mail [email protected] ou telefone (11) 95327-8158. Promoção: O CDHIC em parceria com a Co-viva e com apoio da Brazil Foundation.

Notícias relacionadas