Diminuição em captação de recurso e falta de apoio institucional são dificuldades de OSCs durante pandemia, aponta estudo

É necessário unir forças de diferentes setores para contribuir para o fortalecimento e o potencial de impacto da sociedade civil organizada no Brasil. Essa é uma das conclusões do relatório final do estudo Impacto da Covid-19 nas OSCs Brasileiras: da Resposta Imediata à Resiliência, realizado por Mobiliza e ReosPartners, que mostra que as organizações da sociedade civil (OSCs) brasileiras estão sendo impactadas pela crise econômica aprofundada pela pandemia. 

Entre as 1.760 organizações respondentes da pesquisa, 73% afirmaram que foram enfraquecidas no atual cenário, principalmente aquelas que trabalham com cultura e recreação. Em contrapartida, 18% afirmaram que a crise serviu para fortalecer muito ou parcialmente a organização. Dessas, são maioria as que atuam no setor da saúde.

Apesar de a grande maioria (87%) ter sido impactada pela chegada da nova doença ao país e suas consequências, essas organizações protagonizam um grande movimento para atender e apoiar diretamente as populações afetadas pela Covid-19: 50% estão distribuindo alimentos e/ou produtos de higiene para públicos que já eram atendidos, 44% adaptou suas atividades para o modo online, 37% está desenvolvendo ações de prevenção e conscientização sobre o coronavírus, entre outras ações que envolvem apoio financeiro ou de materiais para o sistema de saúde público (3%). 

Apesar de terem ganhado muitos apoiadores por conta desse trabalho, 73% das respondentes perceberam diminuição na captação de recursos durante a pandemia, ao passo que 65% preveem redução na captação de recursos até o fim do ano.  

Como conectar essas informações com os mais de R$ 6 bilhões contabilizados pelo Monitor das Doações no âmbito da emergência? Segundo Fernando Rossetti, consultor da REOS Partner, existem duas hipóteses para esse cenário: o dinheiro doado vai diretamente para os fins, sem passar pelas OSCs ou acontece o fenômeno que o relatório chama de ‘Big is Beautiful’: o financiamento vai para organizações maiores e com mais capacidade institucional, o que leva a uma concentração dos recursos. 

“As OSCs possibilitam uma escuta mais qualificada e melhor compreensão das dinâmicas da base. Quando há intermediação dessas organizações locais, há um termômetro social muito mais desenvolvido, com uma tendência maior a políticas e melhor alocação de recursos”, aponta o consultor, reforçando a importância do conhecimento e experiência dessas organizações.   

Impacto econômico versus causas das OSCs 

Em um momento em que a importância das OSCs fica ainda mais evidente, os impactos na captação preocupam: 46% das respondentes afirmaram que têm caixa para operar por no máximo mais três meses e 69% afirmam que precisam de recursos para manter os custos operacionais. Para Fernando, os dados apontam para a necessidade de compreender que a diversidade de atores da sociedade civil é um dos pilares fundamentais da democracia e que o associativismo é um mecanismo de fortalecimento social. 

“Na Tabôa, organização da qual sou presidente em Serra Grande, na Bahia, em vez de fazermos fila na porta para entregar cestas básicas, trabalhamos com as lideranças comunitárias, pois são elas que cuidam das listas de famílias que mais precisam de ajuda. Com isso, fortalecemos o capital social: ter esse diálogo com a base é quase tão importante quanto a própria cesta básica, no sentido de que é isso que vai fortalecer essa comunidade a no futuro, talvez, não depender das cestas e ser capaz de gerar sua renda”, exemplifica.

Apesar da importância e da necessidade de que as doações sejam feitas de forma desvinculada de projetos, para que o recurso seja destinado ao desenvolvimento institucional dessas organizações, o momento mostra que a maioria dos recursos vai para ações de enfrentamento direto ao vírus ou a suas consequências. Segundo Fernando, organizações que têm disponibilidade para redirecionar momentaneamente suas ações para o combate à Covid-19 terão mais sucesso na captação. Por outro lado, não é possível exigir esse movimento de todas as organizações. 

“Também é necessário ter um olhar de quem doa e investe de que existem áreas sensíveis na sociedade que precisam de dinheiro para se preservar. As áreas do esporte, arte e cultura e juventude estão muito enfraquecidas e não adianta querermos que essas OSCs passem, todas elas, a lidar com a Covid”, afirma. 

Pandemia, tecnologia e oportunidades

Apesar de evidências que apontam para um cenário desafiador para as OSCs brasileiras nos próximos meses, talvez anos, o estudo também sinaliza um momento de oportunidades. Ao mesmo tempo em que as OSCs sentem, em sua maioria, efeitos negativos acarretados pela pandemia, 53% mencionaram a aceleração do uso de ferramentas digitais para o trabalho como positiva, enquanto 40% sentiu mais engajamento e envolvimento da equipe.  

Além disso, o estudo elencou o papel, bem como as oportunidades para cinco atores sociais diante do cenário complexo em que as OSCs se encontram. O investimento social privado (ISP) pode, por exemplo, ir na contramão do movimento Big is Beautiful e diversificar os tipos de organizações que recebem recursos, além de investir não só em projetos, mas também na capacidade e desenvolvimento institucional das organizações.   

Para o poder público, abrem-se oportunidades como criação de programas de emergência para manutenção de custos, suspensão temporária ou definitiva da cobrança do Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD) e criação de novos modelos de incentivos fiscais. Cidadãos podem, por sua vez, oferecer serviços voluntários à distância, como ensinar funcionários a lidar com tecnologia ou incentivar as empresas nas quais trabalham ou com que tenham relação a apoiarem OSCs locais. 

“A mídia pode aprofundar e qualificar a pauta da cobertura [noticiosa] porque essa é uma área sobre a qual há um profundo desconhecimento e muitos preconceitos a respeito”, exemplifica Fernando.

Por fim, o estudo aponta  oportunidades também para as organizações da sociedade civil: planejar novos pedidos de apoio com base em evidências sobre os impactos da Covid-19, explorar ferramentas digitais, elaborar planos de captação online, trabalhar na articulação com outras OSCs para a troca de experiências e ações conjuntas, entre outras. 

Saiba mais 

O estudo Impacto da Covid-19 nas OSCs Brasileiras: da Resposta Imediata à Resiliência contou com apoio de instituições do investimento social privado que desenvolvem um trabalho próximo às OSCs: GIFE, Fundação Tide Setubal, Laudes Foundation, Instituto ACP, Instituto Humanize, Instituto Ibirapitanga, Instituto Sabin e Ambev. 

Leia o relatório na íntegra neste link

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