Com volta ao presencial, escolas atentam para o emocional dos estudantes

Antes da pandemia de Covid-19 atingir o mundo, o povo brasileiro já era o que mais sofria com transtornos de ansiedade: cerca 19 milhões de pessoas, conforme levantamento feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgado em 2020. O país, entretanto, já vinha liderando esse ranking desde 2017. Os casos aumentaram com a circulação do vírus e com todas as consequências e mudanças que ele impôs.

Uma pesquisa realizada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), em 2020,  com 1.460 pessoas de 23 estados brasileiros e de todas as regiões dos país mostrou que os casos de depressão praticamente dobraram entre os entrevistados, enquanto as ocorrências de ansiedade e estresse tiveram um aumento de 80%. O levantamento foi realizado nos meses de março e abril daquele ano, quando a pandemia se iniciava no Brasil.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) projeta que crianças, adolescentes e jovens poderão sentir o impacto da Covid em sua saúde mental e bem-estar por muitos anos. O alerta mundial foi feito em outubro de 2021. Segundo o principal relatório da organização – focado na saúde mental no século 21 -, Situação Mundial da Infância 2021 – Na minha mente: promovendo, protegendo e cuidando da saúde mental das crianças, essa parcela da população já carregava problemas de cunho emocional sem nenhum investimento significativo para responder ao desafio.

O UNICEF calcula que, globalmente, mais de um em cada sete meninos e meninas com idade entre 10 e 19 anos viva com algum transtorno mental diagnosticado. “Enquanto isso, persistem grandes lacunas entre as necessidades de saúde mental e o financiamento de políticas voltadas a essa área. O relatório constata que apenas cerca de 2% dos orçamentos governamentais de saúde são alocados para gastos com saúde mental em todo o mundo”, aponta o documento.

As escolas reabrem as portas

Educadores e estudantes, após dois anos de Covid, retornam às aulas presenciais graças à cobertura vacinal. Um retorno ainda cercado de protocolos Mas, além desses cuidados básicos, como todos têm se preparado para a volta ao ‘novo’ diante de tantas mudanças físicas e mentais?

Ana Maria Lobo de Carvalho, diretora da Escola Municipal Wilson Hedy Molinari, em Poços de Caldas (MG), que recebe turmas da Educação Infantil ao 9º ano do Ensino Fundamental, explica que  é preciso ter muita cautela e sensibilidade devido ao longo tempo de aulas remotas, híbridas e algumas tentativas de retorno. A gestora conta que, em diálogo com a equipe escolar, decidiu-se por um cronograma diferente do habitual. No fim do ano passado, os educadores se reuniram e preparam uma apostila para ajudar professores e alunos na volta às aulas.

Na escola mineira, a primeira semana de aulas foi voltada à realização de atividades de acolhida dos estudantes. Nesse momento, a gestão abordou as novas regras de convivência, a organização do espaço e das pessoas, já que as turmas ficaram por muito tempo longe do ambiente escolar. “Teve aluno que conseguiu expor o que estava sentindo. Apareceram muitas crianças com medo de diversas coisas, muitas que voltaram a dormir com os pais e que voltaram a fazer xixi na cama”, relata. 

Entre os adolescentes, a diretora tem percebido um problema de socialização com os colegas, um grupo mais retraído, com menos diálogo e mais dispersão. “E isso tudo a gente acredita que seja fruto desse momento de pandemia.” 

Alguns trabalhos propostos pela instituição de ensino tiveram como objetivo entender como as crianças e adolescentes estavam chegando no ambiente. De forma lúdica, os alunos descreveram: feliz, desanimado e triste. Essas foram as palavras que mais apareceram. Entre os desejos estão: saúde, menos doenças, o fim da Covid, esperança, mudar de casa. 

Volta ao Novo

As problemáticas encontradas pelos educadores da escola mineira se repetem país afora neste momento de retomada da educação presencial.  Para Roberto Campos de Lima, vice-presidente de expansão e relações institucionais do Instituto Ayrton Senna, com o tempo recorde em que as escolas ficaram fechadas, as redes de ensino têm agora o desafio de diagnosticar os reais impactos na vida das crianças e jovens brasileiros. “E os primeiros levantamentos apontam para um cenário de retrocesso em um sistema educacional já historicamente marcado pela desigualdade de oportunidades”, avalia Roberto no ebook Volta ao Novo: Uma iniciativa de desenvolvimento socioemocional de educadores e estudantes durante a pandemia.

A iniciativa, que vai além da publicação, aborda cinco macrocompetências socioemocionais trabalhadas nos últimos anos: resiliência emocional, amabilidade, abertura ao novo, engajamento com o outro e autogestão. Por meio de encontros virtuais, técnicos do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) tiveram acesso a conteúdos formativos e dicas práticas para inserir as competências socioemocionais no currículo escolar. 

“Esperamos que o Volta ao Novo continue apoiando a construção de uma política pública que promova a educação integral de todos os estudantes, de forma que as práticas socioemocionais não apenas cheguem ao ‘chão da sala de aula’, como também se desdobrem no planejamento escolar, na sua inclusão no projeto político-pedagógico das escolas”, explica o gerente de canais e alianças do Instituto Ayrton Senna, Carlos Mandel.

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