GIFE lança o Mapa da Atuação do Investimento Social Privado em Educação

A educação tem sido a principal área de atuação do investimento social privado (ISP) desde 2001, segundo dados do Censo GIFE, uma das principais pesquisas sobre o setor no Brasil.

Com periodicidade bianual, o Censo GIFE aborda uma grande variedade de temas e fornece um panorama sobre estrutura, formas de atuação e estratégias das empresas e dos institutos e fundações empresariais, familiares, independentes e comunitários que destinam recursos privados para projetos de finalidade pública, fomentando o aprimoramento da atuação das instituições e apontando caminhos para o fortalecimento do campo no Brasil.

Ao longo desse período, mais de 80% dos investidores sociais afirmaram ter atuado com o tema da educação, seja por meio do desenvolvimento de ações próprias ou do apoio a iniciativas de terceiros.

Vista como um dos pilares da agenda pública no Brasil e no mundo, a educação é tema do quarto Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) – agenda da Organização das Nações Unidas (ONU) composta por 17 ODS e 169 metas a serem cumpridas pelos 193 países membros até 2030: Objetivo 4. Educação de Qualidade: assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todas e todos.

Nesse sentido, o GIFE apresenta o Mapa da Atuação do Investimento Social Privado em Educação. Produzido à luz dos dados do Censo GIFE 2016, o estudo analisa as informações setoriais oriundas das respostas das 116 organizações participantes da pesquisa a fim de subsidiar o debate em torno da importância, das características e do impacto do investimento social privado em educação no país, trazendo assim parâmetros para uma atuação mais qualificada.

“A educação é a maior prioridade da maioria dos institutos e fundações associadas ao GIFE. Apesar disso e de parte relevante do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro ser investido na área, os resultados ainda são muito deficientes. Nesse sentido, não só os programas governamentais precisam ser avaliados, mas também o setor do investimento social privado precisa entender como fazer melhor uso dos recursos investidos, ou seja, como atuar de forma mais colaborativa, inovadora e estratégica. E o Mapa traz um pouco de luz para começarmos a responder essas questões”, afirma Neca Setubal, presidente do Conselho de Governança do GIFE.

O Mapa da Atuação do Investimento Social Privado em Educação é o primeiro produto de uma ação mais ampla empreendida pelo GIFE com o apoio do Instituto C&A e em parceria com o Todos pela Educação e com a Plataforma do Filantropia para os ODS Brasil, coordenada pelo PNUD.

“Como o Instituto C&A estava no momento de fechamento do projeto Legado da Educação e pensando em um espaço coletivo que pudesse fazer com que a agenda da educação fosse fortalecida, achamos importante apoiar a iniciativa”, explica Giuliana Ortega, diretora executiva do Instituto C&A.

Educação no Censo GIFE

Como destacado anteriormente, a educação tem sustentado posição de destaque no Censo GIFE desde sua primeira edição em 2001, inclusive em relação ao segundo e terceiro colocados no ranking de temas mais trabalhados pelos investidores sociais: formação de jovens para o trabalho e cidadania (média de 60%) e cultura e artes (média de 56%).

Dentre as 116 empresas, institutos e fundações respondentes do Censo GIFE 2016, 97 afirmaram atuar na área de educação. Dessas 97 instituições, 78% declararam realizar projetos próprios e 53% disseram apoiar iniciativas de terceiros, o que indica que há várias organizações adotando as duas estratégias em seus projetos de educação.

Além disso, 82 dos 116 investidores sociais (71%) apontaram a área de educação para pelo menos um dos projetos ou programas desenvolvidos. O segundo tema mais recorrente é a formação de jovens para o trabalho e para a cidadania que foi indicado por um terço das organizações (30%).

Quase metade (48%) dessas 97 organizações conta com um orçamento de até R$ 6 milhões por ano para o conjunto de seus investimentos sociais, incluindo o aporte em outras áreas temáticas.

ISP e ODS

A maior parte (69%) dos 116 investidores sociais respondentes da pesquisa em 2016 afirmou já se alinhar ou ter a intenção de se alinhar com o ODS 4. Desses, 80% estão engajados ou pretendem se engajar com organizações da sociedade civil, 58% mencionaram a parceria com outros investidores sociais e 54% focam sua atuação junto a instituições acadêmicas, centros de pesquisas e universidades.

Os governos municipais vêm em quarto lugar (sendo mencionados por 50% dos investidores sociais), os governos estaduais estão na sétima posição (38% dos investidores sociais) e o governo federal consta no 9o lugar (31% dos investidores sociais).

Ação ampla

Erika Sanchez Saez, gerente de programas do GIFE, explica que a segunda etapa do projeto, que tem como primeiro resultado o Mapa da Atuação do Investimento Social Privado em Educação, consistiu em uma escuta ampla com a realização de 30 entrevistas em profundidade com os executivos das principais instituições do setor em volume de recursos investidos em educação, além de pessoas e instituições de outros setores referências no tema.

O trabalho contemplou ainda a realização de dois workshops, que oportunizaram ouvir outras 30 personalidades referências no assunto – entre investidores sociais, OSCs e organismos internacionais -, bem como uma pesquisa online que está em andamento e pretende ser uma consulta aberta para ouvir outros atores e permitirá a ampliação dessa etapa de escuta.

“Esse olhar mais ampliado, não só do setor, mas também das OSCs e da academia, é importante para que o campo possa fazer uma análise crítica de sua atuação”, pontua Neca.

A terceira etapa da iniciativa prevê a análise de todo esse conteúdo a fim de traçar um diagnóstico amplo da atuação do setor sobre o tema apontando desafios e oportunidades. Está previsto também para este ano um encontro com os investidores a fim de debater esse diagnóstico e encontrar caminhos possíveis para uma atuação mais articulada, legítima, conjunta e com maior impacto.

“É importante dizer que todo esse processo de escuta e análise está focado em quatro dimensões no que se refere à atuação do investimento social privado sobre o tema da educação: seu papel, o impacto dessa atuação, a articulação do setor – tanto entre si, quanto com outros atores do ecossistema, como academia, poder público e organizações da sociedade civil -, e a legitimidade dessa atuação”, observa Erika.

A ação culminará em produtos que reunirão diretrizes e orientações para o setor no que se refere especificamente à sua atuação em educação.

Para Margareth Goldenberg, sócia-diretora da Goldenberg, consultoria em investimento social privado, educação, comunicação de causas e diversidade que está coordenando a fase de escuta e análise da iniciativa, o conteúdo acumulado até o momento aponta um conjunto de informações que podem orientar sobre a forma de atuação mais indicada, articulada e sem sobreposições entres os atores do investimento social privado, do poder público e das organizações da sociedade civil no tema da educação.

“Organizar essa inteligência coletiva e apontar premissas, tendências, pontos de atenção e caminhos para o fortalecimento da atuação do ISP em educação é um grande avanço e pode colaborar muito com o incremento de resultados nessa área. É um esforço relevante na história do GIFE de buscar ir além das informações censitárias, escutar de forma aprofundada todos os atores e desenhar um frame estruturado de onde estamos, o que fazemos, o que pode ser melhorado e quais estratégias devemos seguir para chegar lá”, destaca Margareth.

Percepções: desafios e oportunidades

Segundo a consultora, a falta de foco e agenda comum e a fragilidade da atuação conjunta e estratégica com base em temas prioritários para a educação pública brasileira foram alguns dos desafios indicados com maior freqüência durante a etapa de escuta do projeto.

Outro desafio indicado com certa freqüência se refere à busca da promoção da educação levando em conta o aspecto da equidade e a importância de atuar junto ao público mais vulnerável. “Há uma percepção de que o ISP não está priorizando este público ao desenvolver suas iniciativas e de que essa deveria ser uma prioridade na hora de definir investimentos na área”, pontua Margareth.

No campo das oportunidades, a consultora conta que aparecem algumas iniciativas que já estão sendo realizadas com foco comum e uma atuação articulada e estratégica entre vários investidores. “A partir de um benchmarking, fica mais fácil replicar modelos semelhantes de atuação”, observa.

Para Giuliana, o diagnóstico permitiu entender a oportunidade na ação dos investidores sociais privados. “O responsável primário pela oferta de educação no Brasil é o Estado e a maioria dos investidores tem relação direta com os municípios ou com os estados. Esse diagnóstico sobre o que pode ser feito para o ganho de mais sinergia com certeza pode repercutir positivamente na relação público-privada. O papel do investimento social privado não é prover o serviço à população, mas apoiar o poder público e as políticas públicas para que elas sejam, de fato, garantidoras do direito de toda a população a educação.”

Neca ressalta que o estudo ganha ainda mais relevância no atual contexto político brasileiro. “Nós ainda não sabemos como será a nova política do Ministério da Educação e, portanto, essa atuação estratégica do ISP torna-se ainda mais importante. Talvez a gente tenha que olhar mais para os municípios, já que alguns podem ser referências importantes de sucesso de atuação na educação.Precisamos de cases nas várias partes do Brasil que abarquem a pluralidade brasileira.”

Confira aqui o Mapa da Atuação do Investimento Social Privado em Educação.

 

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