Movimento Data for Good propõe aliar Big Data a impacto social e ambiental positivo

 

Inspirar soluções para melhorar a qualidade de vida das pessoas, aumentar a inclusão financeira, tornar as ruas mais seguras, reduzir os danos ambientais. São muitos os benefícios gerados a partir da coleta, processamento e análise de dados de usuários na rede. Pensando nisso, o Social Good Brasil (SGB) e a Fundação Telefônica Vivo se uniram para lançar o Movimento Data for Good Brasil.

Criado por cientistas de dados dos Estados Unidos, o movimento é uma convocação para que empresas privadas, terceiro setor e governos possam se apropriar de dados disponíveis e usá-los, de forma ética e responsável, para causar impacto social e enfrentar os principais desafios da humanidade.

O Data for Good incentiva conexões relevantes e automatizadas entre os participantes da comunidade para fortalecer o ecossistema de inovação social e Data for Good no Brasil. Estão entre suas premissas conectar interesses, causas e talentos comuns; criar novas oportunidades de colaboração/parcerias comerciais e não-comerciais entre os participantes da comunidade; tornar possível a criação de novas iniciativas data for good no Brasil; trazer para a conversa e proporcionar novas conexões a empresas (de tecnologia/ dados ou não) e organizações da sociedade civil (OSCs) que estão apoiando a solução de desafios sociais, já solucionaram desafios usando dados ou estão incorporando dados à sua atuação.

Podem integrar o movimento empresas com iniciativas de impacto social e ambiental; consultorias e empresas de dados; cientistas de dados autônomos; intermediários que oferecem apoio/formação a empresas sociais; universidades, núcleos de estudos e cursos de tecnologias exponenciais/ciências de dados; entre outros. Para participar, basta preencher o formulário no site do movimento, tanto para receber em primeira mão convites e conteúdos Data for Good, quanto para ter sua iniciativa conhecida e incorporada à agenda de eventos do movimento.

O redeGIFE conversou com Ana Addobbati, diretora executiva do Social Good Brasil, sobre a iniciativa e aspectos do movimento que ela acredita serem estratégicos para o engajamento do Investimento Social Privado (ISP) e outros setores na cultura data-driven.

GIFE e SGB têm atuado juntos em algumas frentes, como, por exemplo, o Grupo de Conhecimento do GIFE, do qual o SGB faz parte. A articulação nasceu sob a premissa de reunir organizações referências relacionadas à produção de dados e informações sobre o campo do Investimento Social Privado (ISP) e da sociedade civil para estimular um ambiente de troca, articulação e cooperação.

Uma das últimas ações do Grupo foi a produção de uma edição temática do Boletim de Análise Político-Institucional (Bapi), que reúne artigos científicos de pesquisadores de diversas instituições brasileiras que refletem a atuação das OSCs no país. O Boletim é uma iniciativa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Outras ações entre GIFE e SGB envolvem a parceria institucional e participação em eventos futuros como o Festival Social Good Brasil, previsto para setembro deste ano, e um ciclo de formações em “Data e Cultura Analítica” voltado a institutos, fundações e empresas, a ser divulgado em breve.

Confira a entrevista a seguir.

redeGIFE: O que é ser data-driven?

Ana Addobbati: Ser data-driven é se orientar por dados. Uma organização com cultura orientada por dados toma decisões baseadas em evidências. Usa dados para entender o que aconteceu, definir o cenário atual e também tomar decisões assertivas para o futuro, direcionando ações que considerem as várias perspectivas envolvidas, cruzando dados existentes dentro e fora da organização, a partir das perguntas corretas e num esforço científico – porque também considera as complexidades sociais envolvidas no processo.

redeGIFE: O que é Filantropia de Dados e como ela pode influenciar o setor do investimento social privado?

A. A.: Se entendemos que dados são “o novo petróleo” e os donos dos dados são os donos do poder, vamos pensar como essa ferramenta tem valor para apoiar iniciativas e projetos. Entenda que hoje um cidadão comum interage em média 85 vezes por dia com interfaces que coletam dados. Imagine se essas interfaces pudessem, de forma ética e legal, usar esses dados para identificar quem está carente de recursos essenciais para a saúde, apoiar a mobilidade das grandes cidades, resgates em tragédias, distribuição de medicamentos, comida. O fim do ‘achismo’ na era de dados é um caminho para fazer chegar recursos a quem precisa. A doação desses dados pode surtir, eventualmente, mais efeito para o beneficiário de uma campanha ou programa do que o recurso financeiro, dado o risco que este possa não ser efetivamente destinado ao que é necessário ou a quem precisa.

redeGIFE: A que se propõe o  movimento Data for Good?

A. A.: O movimento Data for Good chega ao Brasil como uma agenda intersetorial de debates, eventos e formações liderada pela sociedade civil organizada para construirmos juntos esse cenário novo e desafiador, porém inexorável, sobre o uso de dados. Como toda tecnologia, a aplicação desta pode ser usada tanto para o bem, quanto para o mal. Num contexto em que temos tantos exemplos negativos – mal uso dos dados dos usuários para fins questionáveis, vazamentos, etc. -, precisamos entender a oportunidade de usar essa ferramenta para otimizar recursos, potencializar impacto e, obviamente, discutir a ética por trás dessas ações.

redeGIFE: Como você avalia o futuro deste movimento, uma vez que vivemos um momento em que a ciência e as evidências são constantemente questionadas, deslegitimadas, muitas vezes?

A. A.: Apesar desse cenário hostil, é preciso entender que os dados são uma grande e poderosa ferramenta. Num contexto de retrocesso, questionar a ciência e os dados é um indício do poder que estes têm. Ao passo que surgem fake news, movimentos autoritários e de controle da livre expressão, os dados são um aliado no combate às narrativas de ódio, ao desmonte de instituições históricas de defesa da democracia e base de argumentação para convidarmos a sociedade ao bom senso e evitar que esta, inclusive, seja manipulada por quem tem interesses escusos. Não somente no nível de narrativa, o uso de dados para mensuração de impacto também é algo capaz de proteger iniciativas e projetos imprescindíveis para a nossa sociedade e que, sem essas evidências, ficam vulneráveis a ‘achismos’ de fundos ideológicos.

redeGIFE: Qual é o papel da prática de avaliação e monitoramento no campo do impacto social e ambiental e o que isso tem a ver com o movimento Data for Good?

A. A.: A mensuração de impacto é uma ferramenta poderosa para garantir não só a gestão, a otimização e a potencialização das iniciativas e intervenções nos campos social e ambiental. Os dados apoiam na captação de recursos, na justificação e validação de abordagens e em ajustes de rota que podem ser imprescindíveis no decorrer de um projeto ou programa.

Muitas vezes, um projeto iniciado de forma estudada e validado em outros contextos pode sofrer interferência de um contexto macro que está fora do controle da organização que o lidera e gere. O monitoramento de indicadores pode apoiar, por exemplo, que tal interferência não passe despercebida e, indo além, pode garantir intervenções imprescindíveis.

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