Organizações da sociedade civil têm tido papel crucial para receber e distribuir doações e entregar serviços aos afetados pela pandemia, aponta especialista

O mundo tem vivido momentos cada vez mais desafiadores diante dos impactos causados pela pandemia de Covid-19 em todos os campos e setores. Ao mesmo tempo, nunca se viu uma sociedade capaz de mobilizar de forma tão ágil tantos recursos para combater a crise. O Monitor de Doações COVID-19, estruturado pela Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) com o apoio do Movimento por uma Cultura de Doação, ultrapassou a marca de R$ 2 bilhões doados.

Marcia Woods, presidente do Conselho Deliberativo da ABCR, assessora da Fundação José Luiz Egydio Setubal, membro do Conselho Curador da Fundação Stickel e membro do Movimento por uma Cultura de Doação, ressalta que os números impressionam pelo montante e é preciso comemorar, principalmente pelo papel fundamental que as organizações da sociedade civil (OSCs) têm tido neste momento.

A especialista destaca o know-how, a legitimidade, a capacidade e a capilaridade das OSCs para receber e distribuir doações e entregar serviços aos afetados pela pandemia, como as 2.100 Santas Casas e hospitais filantrópicos no Brasil, que atendem mais da metade da demanda do Sistema Único de Saúde (SUS) e o grande número de OSCs que atuam em comunidades de baixa renda, levando serviços de assistência social e geração de renda a famílias da periferia.

Tendo em vista a emergência e o foco das doações em razão da pandemia, grande parte das organizações teve que suspender suas atividades, o que ocasionará um impacto expressivo em seus orçamentos e projetos.

Em entrevista exclusiva ao redeGIFE, a especialista analisa o momento atual, aponta algumas tendências sobre a reorganização das doações para o próximo período e reflete sobre os desafios pós-pandemia para o setor. Confira a seguir.

redeGIFE: Na sua avaliação, como o atual cenário de pandemia tem impactado a cultura de doação no mundo e no Brasil?

Marcia Woods: Tanto no Brasil, quanto no mundo, observamos a sociedade se mobilizando de forma expressiva para o combate ao vírus: seja como cidadão, cooperando com as regras de isolamento social; seja como voluntário, apoiando os vizinhos de grupos de risco com suas compras ou fazendo doações, tanto em dinheiro, quanto em bens materiais.

A mobilização de doações tem sido impressionante. Até agora, o Monitor de Doações COVID-19 que a ABCR estruturou com o apoio do Movimento por uma Cultura de Doação ultrapassou a marca de R$ 2 bilhões doados. Isso é inédito. E esse valor não inclui muitas das doações in-kind, como, por exemplo, das empresas que estão produzindo e doando álcool gel.

Um bom exemplo de articulação e mobilização foi a campanha da Comunitas, cuja meta inicial era arrecadar R$ 4,2 milhões para doar 60 respiradores para hospitais da rede pública do estado de São Paulo. Após quatro dias de campanha, R$ 23,5 milhões foram arrecadados e 345 respiradores serão doados.

O impacto dessa mobilização expressiva na cultura de doação no Brasil será profundo: além de mais uma vez reafirmar que somos solidários, a forma de fazer filantropia em momentos de crise é diferente. O nível de engajamento emocional e até operacional por parte dos doadores é grande e a análise do risco ganha nova perspectiva com o senso de urgência da pandemia. Somos menos burocráticos, mais humanos e confiamos mais, afinal, precisamos salvar vidas agora.

Outro aspecto é a visão que a sociedade tem das organizações da sociedade civil como agentes legítimas e capazes para mobilizar, articular e distribuir os recursos para enfrentar as demandas sociais do país.

Mas isso tudo tem que ser estudado e pesquisado para podermos entender esse fenômeno e converter em aprendizado para o setor. Na Fundação José Luiz Egydio Setúbal estamos estruturando linhas de pesquisa em filantropia com este objetivo.

 

redeGIFE: Qual é a importância de fomentar a cultura de doação em um momento como este que estamos vivendo?

Marcia: Ela permite mobilizar um volume de recursos expressivos de forma ágil e rápida, dando uma resposta adequada e necessária para um momento de crise. Outra vantagem é que isso ocorre de forma descentralizada, pois são vários grupos se organizando em diferentes frentes e regiões geográficas, o que é fundamental num país com as nossas dimensões e diversidade de demandas.

E quando se tem uma cultura de doação forte, consequentemente se tem uma sociedade civil organizada vibrante, com capilaridade, o que facilita e agiliza o processo de escoar e transformar esses recursos mobilizados em benefício social, fechando o ciclo da doação. 

 

redeGIFE: Como o Movimento por uma Cultura de Doação no Brasil está avaliando as consequências da pandemia no próximo período? É possível projetar algum tipo de tendência na cultura de doação após essa primeira etapa mais emergencial da crise? Quais são as expectativas em relação a como as pessoas devem se comportar em uma segunda fase da crise?

Marcia: Estamos prevendo uma desaceleração nas doações e uma reorganização para onde estas serão direcionadas. Nesse primeiro momento, há doações expressivas, principalmente de corporações, apoiando a expansão da infraestrutura da saúde, e uma parte menor, destinada à assistência social de famílias de baixa renda. Essa é a demanda da crise atual: os recursos agora precisam salvar vidas e aliviar o impacto econômico imediato de quem está impossibilitado de gerar renda em decorrência do isolamento social.

Em um segundo momento, as doações serão mais pulverizadas em diferentes temáticas e em volumes menores. A disputa por recursos será mais acirrada em um ambiente nada favorável. O senso de emergência passará, mas os efeitos para o Brasil serão tão ou mais profundos que a crise sanitária. Serão milhões de pessoas desempregadas, o possível aumento da violência, inclusive doméstica e para crianças, além de outros efeitos difíceis de antecipar. Precisamos nos manter solidários, acompanhar e apoiar de forma recorrente o trabalho das OSCs para que consigam, junto com governos e empresas, lidar com o pós-crise.

 

redeGIFE: A ABCR e o Movimento por uma Cultura de Doação têm desenhado iniciativas e próximos passos frente a este cenário?

Marcia: Foi definido que o Brasil unirá esforços à Campanha Global especial do Dia de Doar para o combate da COVID-19, que acontecerá no dia 5 de maio. Reconhecemos que a mobilização já está incrível, então o objetivo deste dia será celebrar a solidariedade do povo brasileiro. Ao mesmo tempo, criar um fator novo de mobilização para as pessoas se engajarem novamente com as demandas sociais daquele momento. Então, anotem na agenda: dia 5 de maio, vamos fazer barulho!

 

redeGIFE: Como você avalia o papel das organizações da sociedade civil? Qual é a importância de pensar na sustentabilidade dessas organizações tanto neste momento emergencial, quanto no médio e no longo prazo?

Marcia: As organizações da sociedade civil têm tido um papel fundamental: tem know-how, legitimidade, capacidade e capilaridade para receber e distribuir doações e entregar serviços aos afetados dessa pandemia, como as 2.100 Santas Casas e hospitais filantrópicos no Brasil, que atendem mais da metade da demanda do SUS, e o grande número de OSCs que atuam em comunidades de baixa renda, levando serviços de assistência social e geração de renda a famílias da periferia. 

Entretanto, essas doações de emergência, em grande parte, têm um destino certo, ou seja, não contribuem com despesas administrativas e no médio e longo prazo. Além disso, já existem alguns estudos sendo feitos que demonstram que, com o isolamento social e com o foco em doações para o combate da pandemia, muitas organizações tiveram que suspender suas atividades, inclusive de captação de recursos, e, consequentemente, sofrerão com a redução de suas receitas. Isso terá um impacto enorme nos seus orçamentos e projetos. Há ainda o outro lado da moeda dessa pandemia, o que estamos chamando de a “grande desmobilização”. Vamos perder capacidade no terceiro setor em um momento em que o país mais precisará. Será um retrocesso.

 

redeGIFE: As ações que vêm sendo realizadas por setores da sociedade como o empresarial, do investimento social privado e do setor público têm apresentado respostas a esse tema da sustentabilidade das OSCs, assim como ao fomento pela cultura de doação?

Marcia: Considerando os últimos anos, existem algumas iniciativas que olham o setor de forma ampla e estrutural, mas vão gerar resultados no médio e longo prazo. Entre elas estão as pautas de advocacy, como o projeto Sustentabilidade Econômica das Organizações da Sociedade Civil (Sustenta OSC) ou o Marco Bancário da Doação, por exemplo. É inacreditável pensar que ainda temos imposto sobre doação de interesse público neste país ou um sistema financeiro que não reconhece doação e dificulta seu processamento.

Outra iniciativa é o Prêmio Melhores ONGs, já em seu quarto ano, que estabeleceu indicadores de gestão para as OSCs que são fundamentais para criar os benchmarks de organizações que são fortes e sustentáveis. Ou seja, motiva e inspira o setor a caminhar nesse sentido.

Por fim, é importante reconhecer os investidores sociais privados que são grantmakers e têm a preocupação de desenvolver seus grantees.

E no próprio Movimento por uma Cultura de Doação temos duas iniciativas que contribuem para essa temática: a construção coletiva de um mapeamento e recomendações para fortalecer o setor: o que, consequentemente, fortalecerá as OSCs; e a campanha do #diadedoar, que ganha corpo a cada ano, mobilizando a sociedade. No ano passado foram 42 milhões de pessoas engajadas nas redes sociais. Ela é uma das ações mais estratégicas que temos para pensar a sustentabilidade das OSCs, pois mobiliza as pessoas a doarem ao mesmo tempo em que convoca as organizações a captar recursos. A campanha trabalha nas duas pontas do processo de doação e valoriza uma das fontes de recursos mais “sustentáveis”, que são as doações individuais. Não só para as OSCs, como para o nosso país. Uma pessoa que doa se importa com uma causa, uma comunidade, com um país melhor.

Notícias relacionadas

Apoio institucional