Pesquisa da Oxfam Brasil revela o que a população brasileira pensa sobre as desigualdades no país

 

 

O país vive um cenário de extrema desigualdade. A população percebe isso, mas ainda associa a situação apenas à questão da renda. E, mais do que isso, não consegue compreender o tamanho do abismo, desconhecendo o seu lugar de fato na pirâmide social.

Isso é o que revela a pesquisa promovida pela organização Oxfam Brasil, em parceria com o Instituto Datafolha, chamada ‘Nós e as Desigualdades’, e lançada no final do ano passado. A proposta foi identificar a percepção pública para investigar o que pensam os brasileiros sobre as desigualdades no país.

O estudo revelou que 88% dos brasileiros acreditam pertencer à metade mais pobre da sociedade, e metade pensa que para estar entre os 10% mais ricos é necessário ter um ganho mensal superior a R$ 20 mil. No entanto, a realidade é bem diferente. De acordo com o IBGE, metade da população no Brasil vive, em média, com menos de um salário mínimo por mês, também é fato que, para figurar no grupo dos 10% que mais ganham, basta uma renda de pouco mais de três salários mínimos, segundo dados de 2015 da Pnad. Além disso, os 10% mais ricos apresentam uma enorme distância entre si, com rendas que variam de três a mais de 320 salários mínimos, expondo o nível de concentração da renda no país.

Ou seja, essas e outras dimensões das desigualdades existentes no Brasil são desconhecidas da população. O estudo levantou também outras percepções dos brasileiros sobre o tema: 8 em cada 10 entrevistados concordam com a afirmação de que o Estado tem que atuar para garantir esses direitos; e 7 em cada 10 defendem que os super-ricos devem pagar mais impostos para financiar esses serviços à população (veja outros dados do estudo ao final da matéria).

Em entrevista exclusiva ao RedeGIFE, Katia Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil, ressalta que é fundamental destrinchar as desigualdades existentes no país, lançar muita luz e debate a respeito, para que novos caminhos possam ser construídos, principalmente em 2018, ano de eleições.

“Estamos falando de um país que produz bastante, que tem muitas oportunidades de futuro, ou seja, estamos falando de distribuir o que se constrói conjuntamente. Quando tem uma sociedade mais inserida, com mais diretos e participação, essa sociedade cresce de forma conjunta. O problema é que hoje estamos criando uma sociedade que cresce só para alguns. E isso torna alguns de primeira categoria e outros de segunda categoria. Não podemos fazer isso”, aponta a socióloga.

Durante a conversa, Katia Maia destaca ainda o papel fundamental dos investidores sociais no combate às desigualdades e convoca a uma mudança de postura: “O fundamental também é dar um pulo a mais, reconhecer a importância da pressão política, apoiar as organizações que atuam na proposição de políticas públicas, ou seja, como os institutos e fundações assumem mais o diálogo e o esforço de influência para que as políticas sejam de fato alteradas. A gente contribui no pequeno, mas precisamos mudar no grande. E para mudar no grande realmente precisamos fazer o esforço conjunto de influência. As organizações têm papel importante de mostrar saídas, de denunciar, de pensar soluções conjuntamente e, mais do que tudo, eu diria é de dizer que estamos numa situação inaceitável”.

Confira a entrevista completa:

RedeGIFE – A Oxfam já havia lançado no ano passado a pesquisa “A distância que nos une”, com dados bem impactantes sobre a desigualdade no país. O que motivou a organização a dar continuidade a esse olhar e desenvolver um novo estudo, agora focado nas percepções da população sobre o tema?

Katia Maia – O tema da desigualdade, ao mesmo tempo em que está próximo, está muito distante das pessoas. Quando falamos em desigualdade parece algo grande, traz junto a ideia de ‘nem todo mundo é igual’, ‘que quem tem mais é porque trabalhou mais’… Mas não é bem assim. Entender como a população percebe a desigualdade é importante porque precisamos estabelecer um diálogo. É claro que nem todo mundo é igual, que tem gente que trabalha mais, tudo isso existe, mas estamos falando de desigualdades extremas que ultrapassaram o nível do que seja aceitável. Estamos falando de desigualdades que geram injustiças profundas na sociedade e a população precisa entender isso para podermos enfrentá-las.

É interessante porque temos uma pergunta na pesquisa que diz: ‘você acha que o filho de uma família pobre e o filho de uma família rica, cada um na sua escola, vão ter a mesma chance depois de terminar a escola?’. A maioria da população diz que não. Outra pergunta: ‘você acha que dois trabalhadores – um hoje rico e o outro pobre – eles vão conseguir ter a mesma riqueza no futuro?”. A população diz não. Então há uma percepção que existem desigualdades que não permitem a mesma chance e oportunidade para todos. Por isso, entender esse fenômeno, ver se há uma ressonância na sociedade para este problema, é importante. A gente percebe com a pesquisa que as pessoas estão sentindo que tem algo muito estranho acontecendo na nossa sociedade, que há um abismo sendo criado, tanto no acesso às oportunidades, quanto o que você consegue aproveitar destas oportunidades.

RedeGIFE – A pesquisa aponta que a população percebe a desigualdade majoritariamente ligada à renda. Porém, ela vai muito além, têm diversas outras faces, como essa questão do acesso a direitos básicos. Por que ainda a desigualdade é vista mais por essa faceta?

Katia Maia – A desigualdade econômica é mais óbvia. Quando pensa no conjunto do nosso país e olha a renda no Brasil, temos que 90% dos brasileiros têm uma renda menor que R$4.200,00 per capita. E você tem 10% que têm acima de R$ 4 mil. Isso significa que é um país com uma concentração muito grande. Assim, é lógico que as pessoas sentem mais a parte econômica. E quando estamos num momento de crise econômica, em que o desemprego aumenta, as pessoas sentem mais ainda. Por exemplo, quem mora longe do trabalho, que leva 2 horas para ir e 2 horas para voltar, se tivesse uma renda maior poderia morar perto do trabalho. Ou seja, tem vários elementos vinculados à renda que são muito diretamente ligados ao cotidiano da pessoa. E quando tem a concentração de renda e riqueza nos níveis que o Brasil tem, parece natural que o que vem na cabeça das pessoas é que este é um país desigual do ponto de vista econômico.

Porém, percebe-se também que temos desigualdades profundas ligadas à raça e gênero, que não aparecem logo na primeira resposta da população, mas que quando lançamos novas perguntas, elas surgem, como: ‘você acha que um negro e um branco vão ganhar o mesmo salário no trabalho executando a mesma função? E a população acha que sim. Ao fazer a mesma pergunta sobre a mulher, a maioria acha que a mulher ganha menos só pelo fato de ser mulher. Existem percepções que não são tão imediatas como a econômica.

RedeGIFE – Outro dado que chamou muita atenção é o fato da maioria da população não conseguir perceber a real dimensão dessa desigualdade, desconhecendo o seu lugar na pirâmide social. Qual o impacto disso? Essa falta de percepção real é falta de informação?

Katia Maia – Isso também foi um ponto interessante. Há uma grande parte da população que acha que para ser rico precisa ganhar mais de R$ 20 mil. Mas, na verdade, como eu falei, com R$ 4 mil você já está nos 10% com melhor renda. Além disso, as pessoas acham que a riqueza está no outro, então, eu não tenho nada a ver com esse problema. Essa tomada de consciência, de entendimento, é importante. Tanto é que R$ 20 mil em outro país, por exemplo, não seria tanto, mas tomar consciência de que com R$ 4 mil você está entre os 10% mais ricos é chocante.

É fundamental destrinchar as desigualdades, de conversarmos sobre isso. A gente recebe críticas, de que queremos igualar todos, de que deveria ter o esforço de cada um etc. Mas não é isso. Estamos falando de um país que produz bastante, que tem muitas oportunidades de futuro, ou seja, estamos falando de distribuir o que se constrói conjuntamente. Quando tem uma sociedade mais inserida, com mais direitos e participação, essa sociedade cresce de forma conjunta. O problema é que hoje estamos criando uma sociedade que cresce só para alguns. E isso torna alguns de primeira categoria e outros de segunda categoria. Não podemos fazer isso.

A questão é que temos um debate muito polarizado a respeito. É preciso que a população entenda o problema das desigualdades extremas que vivemos, a fim de tentarmos influenciar as políticas públicas. Hoje, por exemplo, o tema da corrupção está muito forte, pois estamos recebendo muitas informações sobre este problema. Queremos que as pessoas falem também sobre as desigualdades.

RedeGIFE – A pesquisa revela que 8 entre 10 brasileiros concordam com a afirmação de que o Estado tem que atuar para garantir esses direitos. Essa é uma pauta para este ano de 2018 nas eleições? É preciso enfatizar cada vez mais junto aos governantes?

Katia Maia – Seria um grande passo se o grande tema das eleições fosse o combate às desigualdades extremas do Brasil, principalmente porque, infelizmente, estamos atualmente indo à outra direção. Por isso, é fundamental trazer as organizações da sociedade civil, os meios de comunicação, para falar sobre as agendas da desigualdade de forma séria e profunda. Precisamos de mudanças estruturais no país e 2018 é uma oportunidade para avançar neste debate, principalmente diante de decisões recentes que podem aumentar as desigualdades. Como exemplo, temos o salário mínimo que não teve aumento real. E uma forma de reduzir desigualdade de renda é por meio do ganho do salário. Isso sem falar do congelamento de gastos com educação, saúde etc., que são importantes para combater as desigualdades.

Por isso, 2018 deveria ser o momento de discutirmos o que queremos construir para o futuro do país e quais são as plataformas de candidatos parlamentares que vão ter esse compromisso. É preciso trazer o tema para o debate.

RedeGIFE – Vemos hoje, em pleno 2018, que ao invés de reduzirmos a concentração de renda, ela se torna ainda maior. O relatório “Recompensem o trabalho, não a riqueza”, que a Oxfam também realizou, aponta que houve um aumento histórico no número de bilionários em 2017: um a cada dois dias entre março de 2016 e março de 2017. Atualmente há 2.043 bilionários no mundo. O Brasil ganhou 12 bilionários a mais no período, passando de 31 para 43. O país tem hoje cinco bilionários com patrimônio equivalente ao da metade mais pobre da população brasileira. O que é preciso fazer para reverter esse quadro? Vocês trouxeram no documento algumas recomendações. Quais são as prioritárias?

Katia Maia – Eu diria que há três questões principais. É inaceitável em pleno século XXI termos exploração de trabalho similar à escravidão para o ganho rápido de empresas. Ou seja, estamos falando de justiça: é resolver a questão do direito básico do trabalho, com condições justas, salários justos.

Outra coisa é mudar essa visão do ganho rápido. As empresas estão operando muito para cada vez gerar mais dividendos aos seus acionistas. As empresas precisam pensar mais no conjunto da sua operação, nas condições dos seus trabalhadores e na sua atuação na sociedade. Todo mundo sabe que empresa é para gerar lucro, não temos dúvida quanto a isso. Mas, estamos num momento em que há uma visão de gerar cada vez mais à custa da condição dos trabalhadores.

E o terceiro ponto tem a ver com o papel do Estado, no que se refere à questão da tributação, dos impostos. A gente precisa realmente enfrentar o desafio de ter uma tributação justa, de quem pague mais impostos não sejam aqueles que têm menos, mas quem tem mais. E aí temos várias coisas que podem ser feitas em curto prazo e podem melhorar o quadro em que vivemos hoje.

RedeGIFE – Qual o papel das outras instâncias da sociedade, não só o governo, mas das empresas, organizações da sociedade civil, institutos e fundações para diminuir as desigualdades no país?

Katia Maia – É um papel essencial porque o problema das desigualdades extremas não vai se resolver somente pelo Estado, não há como. O esforço da redução das desigualdades é um esforço do conjunto da sociedade: o Estado, o setor privado e da sociedade civil. E aí os institutos e fundações tem papel muito importante. Primeiro existe o compromisso real destes institutos e fundações em reduzir a pobreza, em atuar para melhorar a vida das pessoas.

Mas, o fundamental também é dar um pulo a mais, reconhecer a importância da pressão política, apoiar as organizações que atuam na proposição de políticas públicas, ou seja, como os institutos e fundações assumem mais o diálogo e o esforço de influência para que as políticas sejam de fato alteradas. A gente contribui no pequeno, mas precisamos mudar no grande. E para mudar no grande realmente precisamos fazer o esforço conjunto de influência. As organizações têm papel importante de mostrar saídas, de denunciar, de pensar soluções conjuntamente e, mais do que tudo, eu diria é de dizer que estamos numa situação inaceitável.

Chegamos num nível tão grande de desigualdades, que não é apenas as organizações falando sobre isso, mas é o Banco Mundial, o FMI, o Fórum Econômico Mundial… Ou seja, essa não é uma agenda de ONG. Passou a ser uma agenda do rico porque o nível de desigualdade extrema que vivemos causa distorção no sistema. Temos um aumento significativo de violência que passa pela fala de saída para milhões de pessoas.

Veja outros dados do estudo “Nós e as desigualdades”:

População vê desigualdade de renda
– 39% classificam a desigualdade como diferença socioeconômica,
– 8% a classificam como carência de recursos e serviços, segundo maior grupo

Os ricos são “os outros”
– 88% declaram estar entre a metade mais pobre numa escala pobreza-riqueza de 0 a 100
– 47% dos brasileiros acreditam serem necessários mais de R$ 20 mil mensais para ser parte dos 10% mais ricos

O pessimismo é a regra quando o assunto é desigualdade da população
– 58% acredita que nada ou pouco mudou no passado recente
– Duas em cada três pessoas não acreditam que a desigualdade vai cair nos próximos anos
– 88% dos brasileiros acreditam que as medidas do atual governo não alteram ou pioram a desigualdade no País

Corrupção, falta de emprego e de educação são principais causas da desigualdade
– 81% acreditam que a corrupção “contribui muito” para as desigualdades
– 70% o desemprego
– 66% a educação

Discriminação contra mulheres e negros tem grande impacto em desigualdades
– 57% acreditam que mulheres ganham menos por serem mulheres
– 46% acreditam que negros ganham menos por serem negros

Emprego, investimento em educação e reforma do sistema político são as principais soluções
– 71% dos brasileiros apontam a oferta de emprego como um dos principais mecanismos de combate à desigualdade
– 67% no caso do investimento em educação
– 61% para reformas do sistema político

Combate às desigualdades é papel do Estado
– 79% acreditam que o combate às desigualdades é obrigação de governos

Aumento de impostos? Sim, para os muito ricos dos brasileiros
– 75% são contra o aumento geral de impostos para custear políticas sociais
– 71% são a favor do aumento de impostos para pessoas muito ricas para esses fins

“Mérito” não explica desigualdades
– 60% discordam que pobres que trabalham muito têm iguais oportunidades que ricos
– 55% não acreditam que crianças pobres com estudo têm oportunidades iguais às de crianças ricas

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