Publicação reúne planos de aula sobre educação antirracista

Não é incomum ouvir pais e mães se perguntando onde seus filhos aprenderam determinada palavra ou gesto que reproduzem em casa. Geralmente, essas questões aparecem quando as crianças começam a ir para a escola, onde seu mundo se expande além do núcleo familiar e passam a ter contato com crianças e adultos de outras realidades e com múltiplas bagagens e vivências. Esse é apenas um dos inúmeros motivos pelos quais a escola deve promover um amplo leque de temas e debates visando o desenvolvimento integral de crianças e jovens. 

Foi pensando neste desafio que a Fundação Telefônica Vivo criou a publicação Escola para Todos: Promovendo uma Educação Antirracista – Planos de Aula Comentados. O material surgiu a partir do curso homônimo, ofertado desde 2017 na plataforma online gratuita Escolas Conectadas, que apresenta a educadores os conceitos básicos da educação antirracista e que compreendam a implementação da Lei nº 10.639/03 – que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas brasileiras.

Com 227 páginas, o material traz quatro capítulos dedicados à apresentação das bases teóricas de uma proposta de educação antirracista, discutindo o panorama atual da realidade racial brasileira, a importância de uma educação antirracista, o que é ambiência racial e outras temáticas. O destaque do guia fica por conta dos planos de aulas desenvolvidos por professores que fizeram o curso. 

Para Lia Glaz, gerente de projetos sociais da Fundação Telefônica Vivo, já existe um grande debate sobre o tema e um consenso sobre sua importância. A oportunidade, portanto, permite mostrar aos professores como realizar ações, atividades e propostas.

“Decidimos organizar esse livro porque faltam experiências para apoiar os professores no desenvolvimento da educação antirracista. Observamos a experiência de educadores que já estão criando algumas práticas e tendo um bom resultado com o uso de várias dinâmicas em diferentes contextos do Brasil. Carolina e Fernanda Chagas Schneider, as autoras da obra, fizeram a curadoria a partir de um acervo de mais de 4 mil planos de aula e chegaram à seleção que está no livro”, explica. 

Educação antirracista no contexto brasileiro 

Com a abolição da escravatura, em 1888, a população antes escravizada enfrentou inúmeras dificuldades para conseguir moradia, emprego e ter direitos básicos garantidos, cenário ainda hoje enfrentado pelo povo negro. E foi sobre essa base racista que o país foi construído. 

Considerando esse contexto, Lia reforça a importância de abordar o tema dentro da escola, uma vez que trata-se de um local privilegiado por promover o desenvolvimento das crianças e jovens com senso crítico a partir da construção do conhecimento de uma forma mediada e profissional. 

Um ponto de atenção, entretanto, é a própria formação dos educadores para trabalhar o tema. Lia explica que a educação antirracista deve estar presente nos currículos não só na forma como as dinâmicas das aulas são propostas, mas também na maneira como os professores são orientados e treinados para que vieses cognitivos sejam abandonados. 

“Existem pesquisas que mostram um viés cognitivo por parte de professores quando estão ensinando alunos negros de periferias versus alunos brancos de escolas de elite. Isso precisa ser desconstruído. Ou seja, a educação antirracista precisa estar no conteúdo e na forma de ensinar e só poderemos fazer isso de forma consciente”, afirma. 

Da educação infantil ao ensino médio

Os planos de aula apresentados no livro abordam todas as faixas etárias, desde a educação infantil até o ensino médio. Para crianças pequenas, o mais comum é a leitura de obras que possibilitam rodas de conversa, por exemplo, sobre temas como estética negra, percepção de si e do outro, ancestralidade, autoestima, respeito, relacionamento com família, entre outros. “É um processo de ruptura no modus operandi, na forma como o nosso país opera”, diz Lia.

Assim, o cuidado a ser tomado é adaptar as propostas de acordo com a faixa etária dos estudantes. Se na educação infantil é possível trabalhar com livros que tragam personagens negros, no ensino médio a discussão pode ser sobre o ponto de vista do racismo na sociedade de forma mais aprofundada. 

“A maneira como isso vai ser feito deve ser adequada a cada faixa etária, mas o tema em si é relevante ao longo de todo o trajeto educacional e os planos de aula apoiam esse processo ao trazer uma visão concreta, construída de professor para professor, de como isso pode ser feito. Esse viés prático ajuda a explicitar, para além do debate teórico, como o professor que já acredita que o tema é importante pode de fato exercitá-lo com seus estudantes.” 

Aprendizados 

Depois de quatro anos de curso e cerca de 4 mil planos de aula produzidos, Lia comenta sobre a importância de sistematizar esse conhecimento acumulado. 

“Com esse livro, aprendemos que já existe uma diversidade de ações acontecendo e uma vontade de professores de fazer e não saber como. À medida que começamos a ter um conhecimento acumulado de professores sistematizando suas práticas, para que possam ser trocadas com outros profissionais a partir de uma curadoria de especialistas chancelando esse processo, isso ajuda a criar uma grande comunidade de prática a ser disseminada pelo país, para que, de fato, possamos ter uma mudança de chave sobre esse tema dentro das nossas salas de aula de um jeito muito prático e que mostra que é possível.”

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