Mitos, dilemas e oportunidades dos negócios de impacto

Fábio Deboni[1] 

Há muitas narrativas que permeiam o campo de negócios de impacto que nos levam a embarcar de forma rasa nesta ‘prosa’, reforçando pré-conceitos ou abordagens até mesmo distorcidas. Como há ainda pouco repertório sistematizado e, sobretudo, poucos espaços de debate que buscam aprofundar e problematizar esta nova agenda, é preciso ter ‘muita calma nessa hora’ para não sermos levado por uma empolgação vazia nem para não entrarmos de ‘gaiato’ nesta onda.

São inegáveis o avanço da indústria do investimento de impacto e o boom de negócios de impacto pelo Brasil e pelo mundo, sob as mais variadas denominações, enfoques e perspectivas. Esse novo campo tem engajado novos ‘entrantes’ que o acessam por diferentes lugares – de empresas tradicionais, do mercado financeiro, de startups ‘convencionais’ – pra citar alguns até então mais distantes da agenda socioambiental – passando por aqueles já convertidos a ela, mas com desconhecimento de mecanismos de mercado para estes fins (ou com ressalvas a eles) – organizações, profissionais e movimentos do terceiro setor, da filantropia, da economia solidária dentre outros.

Temos, portanto, um quadro complexo com múltiplas portas de entrada[2] ao ecossistema de investimentos e negócios de impacto[3].

O objetivo deste artigo é levantarmos alguns mitos que têm sido ‘ventilados’ nas conversas deste campo e problematiza-los partindo do princípio de que questões socioambientais são complexas, urgentes e necessitam ser enfrentadas a partir de atuações múltiplas e diversas. Portanto, assume-se a priori que não é possível supor uma única solução, um único instrumento nem um único setor como sendo a ‘salvação’ da nossa sociedade e do nosso planeta dos problemas socioambientais que nos assolam na atualidade.

Além destes mitos, procuramos também sintetizar alguns dilemas e controvérsias que orbitam ao redor deste tema, sobretudo para setores e organizações historicamente comprometidos com a questão socioambiental.

Finalmente procuramos elencar oportunidades que emergem deste novo terreno, com destaque para aquelas com maior conexão com estes grupos citados anteriormente. Para as oportunidades clássicas ‘de mercado’ ou ‘de investimento’ no campo de negócios de impacto, há outros espaços e referências onde é possível encontrar amplo repertório de informação.

  1. Mitos

Procurei capturar no radar 5 narrativas que expressam de modo equivocado como este tema vem sendo percebido ao nosso redor. A partir de cada narrativa, procurei problematizar e provocar percepções mais profundas sobre o assunto, longe de esgotar o debate.

Inovação Social é igual a Negócios de Impacto[4]

Há uma tendência mundial de se enxergar ‘investimento de impacto’ como sendo sinônimo de inovação social e também já há certo consenso de que os negócios de impacto são, provavelmente, as formas mais tangíveis na atualidade de se materializar inovação social. Neste sentido, há diversas formas de se implementar inovação social não somente via instrumentos de mercado. Historicamente organizações do terceiro setor e grupos comunitários são um ‘prato cheio’ de referências neste sentido.

São, porém, os negócios de impacto os elementos que mais têm aparecido neste radar e, por isso, acabam sendo considerados como sendo as únicas formas de se viabilizar a inovação social, o que não é verdadeiro.

A dica aqui é calibrarmos mais nosso radar para que ele volte a capturar iniciativas de inovação social que não sejam somente as ‘de mercado’[5].

As ONGs vão virar negócios de impacto

Talvez seja uma das falas mais ouvidas por aí. Ela tenta cravar um destino não verdadeiro e traz consigo o desafio histórico de profissionalização e gestão das ONGs.

Diante do contexto cada vez mais desafiador na mobilização de recursos, muitas organizações do terceiro setor têm buscado formas de se reinventar – rever seus modelos de atuação, seus modelos de receita e despesa, etc – e acabam descobrindo inspirações no campo emergente dos negócios de impacto.

Muitas vezes essas inspirações são equivocadas e tendem a induzir a ONG a cair na armadilha de que basta a organização simplesmente virar a chave e se tornar um negócio de impacto que seus desafios crônicos de sustentabilidade econômica estariam resolvidos. Aqui se ouvem também falas na linha do ‘modelo híbrido’ que as ONGs supostamente passariam a ter, como se ele fosse fácil de ser gerido e como se fosse sinônimo de ‘seus problemas acabaram’.

Os negócios de Impacto vão substituir as ONGs

Seguindo o raciocínio do ponto anterior, há uma narrativa correlata a esta que interpreta as ONGs como sendo um ‘modelo ultrapassado’ e que, portanto, daqui a algum tempo elas serão substituídas por um formato mais ‘moderno’ e ‘inovador’, que supostamente seriam os negócios de impacto. Evidente que cabe aqui uma reflexão profunda que vise contrapor este tipo de raciocínio ‘evolutivo’[6].

A questão fundamental aqui passa por duas ponderações importantes:

  1. Os negócios de impacto vão ocupar espaços que historicamente eram (são) ocupados pelo terceiro setor e pelas políticas públicas? Isso já vem ocorrendo em alguns setores – habitação, educação, saúde, etc, mas mesmo neste contexto, a entrada de negócios de impacto não significa ‘terra arrasada’ para as ONGs, pois mesmo nestes setores há tipos de público, tipos de atendimento e tipos de serviços ofertados que não têm/terão encaixe adequado em modelos de negócio. Portanto, o papel do terceiro setor das políticas públicas seguirá sendo fundamental em diversos contextos e situações.
  2. Há setores, tipos de serviços e de público, e formas de atuação em que não há modelagens possíveis (com as lentes de hoje) para soluções de mercado. Desta forma, organizações do terceiro setor e políticas públicas seguirão sendo peças chave na oferta deste tipo de serviços aos cidadãos[7].
Os Negócios de impacto resolvem melhor os problemas socioambientais

Há um certo ‘mantra’ no ar que considera que os negócios de impacto são modelos mais inovadores e mais escaláveis que as ONGs e, desta forma, seriam mais adequados para atacar boa parte dos problemas socioambientais atuais.

Segundo este raciocínio, somente o setor privado (leia-se: os negócios, sejam os de ‘impacto’ ou os convencionais, as startups e/ou as empresas) é que teria condições de enfrentar da melhor forma possível e na escala necessária estes diversos problemas.

Esse pensamento traz, pelo menos, duas inconsistências:

  1. De que só os negócios é que têm competência para tal, menosprezando os demais setores e organizações que historicamente têm se engajado no enfrentamento dos diversos problemas socioambientais. Diante do contexto complexo global atual, não é mais cabível atribuirmos a um único setor a resolução deste ou daquele problema. Um bom exemplo disso são os ODS, que nos enfatizam claramente a necessidade de arranjos multissetoriais nestas agendas.
  2. Há questões que são e que seguirão sendo invisíveis aos radares do mercado, sobretudo, questões que não gerem ‘bons negócios’ (leia-se: que não tenham boa rentabilidade). Portanto, relegar essas questões unicamente ao setor privado é assumir que elas seguirão invisíveis aos olhos do mercado.

Com essas questões expostas, vale destacar que o setor privado tem sim um papel cada vez mais relevante na agenda socioambiental, mas ele deve ser encarado como sendo mais uma peça chave neste xadrez, dentre as outras que já atuavam nesta frente.

As fontes de recursos tendem a reduzir para ONGs e aumentar para negócios de impacto

Paira no ar esta preocupação no terceiro setor, pois ela parte do princípio de que essa afirmação é correta. Como toda questão complexa, é muito difícil responde-la de forma ‘sim’ ou ‘não’. Vamos, então, problematiza-la para aprofundar sua compreensão.

Há um desafio crônico de sustentabilidade econômica para as ONGs e este tema vem sendo tratado de diferentes formas, frentes e atores. Parece também haver certa concordância de que fontes de recursos da cooperação internacional e de governos (convênios públicos) vêm diminuindo ao longo dos tempos, gerando maior pressão em diversas ONGs para buscar novas fontes de recursos para manter seus projetos e operações.

Neste contexto, emerge a indústria do investimento de impacto que pressupõe a alavancagem de novas fontes de capital (públicos e privados) para escalar soluções para enfrentar questões socioambientais com retorno financeiro. Esse fenômeno emerge num momento delicado para as ONGs (e para a filantropia), pois tende a ser percebido como uma competição desigual por recursos já escassos.

De um lado, as ONGs buscando novos ‘bolsos’ para seus projetos e, de outro, novas ‘ofertas’ de soluções de impacto (os negócios de impacto) oferecendo condições mais ‘sexys’ para investidores.

Entretanto, é preciso levantar algumas perguntas:

Será que essa ‘competição’ é travada a partir dos mesmos ‘bolsos’?

Os ‘novos’ bolsos que estão começando a injetar recursos na indústria de investimento de impacto já doavam recursos para as ONGs?

Será que a agenda de negócios de impacto não poderia funcionar, neste caso, como uma porta de entrada à agenda socioambiental mais ampla?

Haverá migração de ‘bolsos’ que até então doam/doavam recursos a ONGs passando a direcionar recursos para negócios de impacto?

O fator geracional contribui para acelerar essa mudança de ‘bolsos’, com maior preferência para o campo do investimento de impacto?

Como se trata de uma agenda ainda recente, não há distanciamento suficiente para concluir que haverá ou não deslocamento de fontes de recursos de um ‘lado’ para o ‘outro’. A conferir quais os contornos que esta questão tomará. Há muitas controvérsias neste tópico e muita reflexão será ainda necessária para aprofundá-la.

  1. Dilemas

Já abordamos anteriormente algumas barreiras que institutos e fundações têm encontrado na aproximação com a temática dos negócios de impacto[8]. As mesmas barreiras podem ser trazidas aqui como dilemas das organizações do terceiro setor.

  Dilemas Questões envolvidas
1 Ideológico

 

Temos barreiras ideológicas neste tema? Quais? Elas são impeditivas de um eventual engajamento da nossa organização com ele? Porque não engajar nele?
2 Institucional

 

Faz sentido à nossa organização se engajar com este tema? Nós visualizamos nele alguma oportunidade de potencializar o alcance de nossa missão?

Quais os ônus e bônus de nossa organização no envolvimento com este tema?

3 Estratégico e metodológico

 

Vamos revisar a estratégia de nossa organização e onde/como incluiremos essa agenda? Vamos descontinuar projetos e áreas que já existiam? Quais os caminhos mais adequados para desdobrarmos essa nova estratégia?
4 Técnico

 

Temos em nossa equipe conhecimento técnico sobre este tema? O que precisamos adquirir em termos de habilidades para seguirmos com segurança? Precisaremos terceirizar esse conhecimento? Vamos lançar mão de novos parceiros?
5 Jurídico e contábil

 

Vamos assumir um modelo híbrido? Quais os ônus e bônus deste formato? Porque não virar empresa? Porque sim seguir como ‘ONG’? Estamos seguros e bem assessorados neste aspecto?
6 Orçamentário

 

Do ponto de vista orçamentário, compensa nossa organização incluir esse tema em sua agenda de atuação? Quais impactos orçamentários teremos para quais ganhos estimados?

São apenas algumas perguntas provocadoras para que cada organização encontre espaço para refletir e debater internamente esse tema.

  1. Oportunidades

Diante deste cenário de incertezas, de mitos e dilemas, como então sua organização vem procurando se posicionar?

Partindo para uma abordagem mais objetiva e positiva do assunto, a intenção é encerrar o texto dando destaque a algumas oportunidades que já são percebidas no radar e que vem fazendo sentido a diversas organizações do terceiro setor, dentre elas institutos e fundações. Longe de esgotar o debate, são ventiladas algumas oportunidades a seguir.

  • Aceleração de ONGs

Até então ‘invisível’ no radar do ecossistema de negócios de impacto, começam a emergir aceleradoras de impacto especializadas em ONGs e em cooperativas como parte das soluções ‘de prateleira’ para esse ‘mercado’. As aceleradoras de negócios de impacto já parecem estar suficientemente ocupadas para customizar soluções para ONGs e cooperativas, o que abre espaço para estes outros players construírem essas soluções[9].

  • Blended finance

Em linhas gerais consiste num mix de recursos não-reembolsáveis (doação) com recursos reembolsáveis (empréstimo dentre outros), como forma de assumir que é preciso juntar os dois bolsos para ampliar o leque de organizações e soluções de impacto aptos a serem beneficiadas por estes instrumentos. Já há notável avanço nesta agenda no Brasil e no mundo e ainda veremos muitas novas iniciativas emergindo a partir dela[10].

Este tipo de recurso misto pode se constituir numa nova porta de entrada de ONGs nesta agenda dos negócios de impacto, a partir da testagem e validação de novos modelos de atendimento, eventuais braços de negócio e outras soluções que elas venham a construir a partir de um maior envolvimento com esta agenda. Além disso, seria também natural supor que institutos e fundações podem ampliar as possibilidades de fomento a este campo, por considerar este tipo de mix como uma abordagem mais próxima das práticas que historicamente o ISP já realiza.

O desafio que aparece no radar é que as iniciativas de blended finance sejam, de fato, construídas para contemplar não apenas negócios de impacto (empresas) em estágios iniciais, mas também iniciativas com outros formatos jurídicos (associações, cooperativas, etc).

  • Espaços de aprendizagem

Uma grande lacuna para institutos, fundações e ONGs neste novo campo refere-se a oferta de espaços de aprendizagem e de formação. Embora uma busca rápida na web permita encontrar cursos online e outras ofertas formativas sobre este tema, o repertório ainda é restrito e bastante inicial.
Para as ofertas formativas do campo de negócios de impacto, ONGs, institutos e fundações tendem a não ser percebidos como públicos estratégicos na oferta de oportunidades formativas. Já, para as ofertas de cursos do/no terceiro setor, ainda não há suficiente repertório temático e diferentes linhas de abordagem para ofertar oportunidades de formação que atenda a este público.

O desafio aqui é o de conceber diversidade de propostas de aprendizagem que contribuam efetivamente para ampliar repertórios e entendimentos dos diversos atores do terceiro setor que orbitam ao redor do campo de negócios de impacto. Além disso, deve-se evitar reproduzir a armadilha de que parte da oferta formativa seja apenas uma porta de entrada para a venda de consultorias para organizações que queiram aprofundar-se neste novo tema.

Finalmente, iniciativas formativas recentes têm mostrado o quanto espaços de co-criação e de colaboração entre pares tendem a ser poderosas oportunidades de formação[11].

  • Negócios de Impacto Periféricos

Uma das ‘meninas dos olhos’ de muitos que transitam neste campo, os negócios de impacto periféricos (ou somente negócios periféricos) emergem com força e trazem à tona o desejo e a potência de pessoas de comunidades (da base) para empreenderem seus próprios negócios de impacto que atendam a pessoas das próprias comunidades.

Em suma, estes grupos têm se questionado, com razão, porque a base da pirâmide é vista apenas como cliente ou mercado consumidor destas soluções de ‘impacto’, que, via de regra, são empreendidas por homens brancos, da classe média/alta de regiões ricas dos grandes centros urbanos.

A partir desta inquietação, diversas iniciativas da periferia ganharam impulso nos últimos tempos e seguem conquistando de forma legítima seu lugar ao sol no campo de negócios de impacto[12].

Pra fechar, vale ressaltar que há um potencial inexplorado de interfaces entre grupos/coletivos/movimentos da justiça social, da economia solidária, da filantropia comunitária (e temas afins) com esse movimento emergente dos negócios periféricos. A ser ainda mais amplamente debatido e explorado, o que evidencia o quanto essas agendas estão em permanente construção.

* * * * *

[1] Gerente Executivo do Instituto Sabin (www.institutosabin.org.br). Atualmente coordena a Rede Temática de Negócios de Impacto do Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas) em conjunto com o ICE. Membro do Conselho do Gife. É autor do livro “Reflexões contemporâneas sobre Investimento Social Privado”. fabio@institutosabin.org.br

[2] Já abordei esse tema anteriormente: https://gife.org.br/portas-de-entrada-ao-tema-de-negocios-de-impacto/

[3] Anteriormente denominado como sendo ‘de finanças sociais e negócios de impacto’.

[4] Já debatemos esse tema anteriormente: https://gife.org.br/inovacao-social-negocios-de-impacto/

[5] Já abordamos essa questão anteriormente, procurando ampliar o leque de compreensão sobre o tema da inovação social: https://gife.org.br/inovacao-social-o-que-ha-embaixo-deste-guarda-chuva/

[6] Fizemos exercício similar na reflexão sobre a relação entre filantropia e negócios de impacto: https://gife.org.br/falsa-ideia-da-linha-evolutiva-da-filantropia/

[7] Já debatemos os dilemas da aproximação entre OSCs e negócios de impacto anteriormente: http://ice.org.br/oscs-e-negocios-de-impacto-aproximacoes-e-dilemas/

[8] Mais detalhes aqui: https://gife.org.br/portas-de-entrada-ao-tema-de-negocios-de-impacto/

[9] Pra citar algumas destas referências: https://phomenta.com.br/, https://www.ekloos.org/ como duas referências de aceleradoras de ONGs, e http://ises.org.br/ como sendo uma organização mais próxima do universo de cooperativas, embora ainda não tenha um programa de aceleração.

[10] Din4mo e SITAWI podem ser referências nesta frente.

[11] Referência ao FIIMP 1 (https://forcatarefa-assets.s3.amazonaws.com/uploads/2018/05/guiafiimp2018.pdf) e FIIMP 2 (em constituição), e ao Enzima Lab (iniciativa de formação para institutos e fundações cocriada pela Din4mo e Instituto Sabin. Uma segunda turma será aberta em 2019. Interessados, favor contatar: mariana@din4mo.com

[12] Merece destaque a Aceleradora de Negócios de Impacto Periféricos (ANIP), sob a liderança e gestão d’A Banca, Artemísia e FGV, e com o apoio de diversos parceiros. https://www.aceleradoranip.com/

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